A VIDA DENTRO DO ÚTERO E A SABEDORIA DO FETO

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Desde a fixação do futuro embrião às paredes do útero, até ao final da gravidez, muita coisa acontece. Hoje podemos observar em direto a evolução das capacidades e competências do feto, darnos conta da complexidade do seu mundo sensorial, da construção do seu psiquismo, da forma como sente as diferenças entre o «dentro» e o «fora» do útero materno, e sobretudo da importância da relação primordial com a mãe.

Ao contrário do que se pensava, quando nascem, os bebés não são tábua rasa. A ciência revela que o feto absorve inúmeras sensações dentro e fora do útero, desenvolve competências físicas e psíquicas, interage com a mãe e com o meio exterior. Ou seja, afinal o feto é um sábio. E quando finalmente chega a hora de nascer, o bebé traz consigo toda essa sabedoria para a sua nova realidade.

A biologia junta-se à psicologia para que possamos interpre­tar dados, números, imagens, e deles tirarmos conclusões. Se a biologia aponta estudos sobre a verificação, in útero, da aquisi­ção de competências físicas precoces, a psicologia discerne so­bre o extraordinário fenómeno da “inteligência fetal”, a relação entre o amadurecimento do sistema nervoso e o pensamento potencial de que o pré-nascituro dispõe, os comportamentos individualizados manifestados pelos fetos no útero das mães, o papel da genética em todo este processo, como decorre a vida emocional intrauterina e tantas outras coisas. Do que não há dúvida é que no decorrer da gravidez, a relação entre mãe e filho tem uma importância enorme no bem-estar da criança que vai nascer. As trocas emocionais entre ambos vão muito mais longe do que se pensava, e o entendimento da natureza e da profundi­ dade dos vínculos afetivos, desde as origens da vida, ajuda-nos a compreender a importância do afeto em todos nós.

Enquanto está no ventre da mãe, o feto já tem uma série de competências físicas e psicológicas, afirmam cientistas e psicólogos.

NOSTALGIA DO ÚTERO

A descoberta e a exploração do inconsciente foi acontecendo através da análise dos sonhos, da observação e estudo de com­ portamentos e da nossa força criativa, fonte de vida, motor de mudança e de regeneração. Hoje, a investigação científica, do­tada de meios tecnológicos cada vez mais aperfeiçoados, permi­te-nos visitar lugares que estão mais fundo dentro de nós e que nos permitem ver de perto e de “dentro” as raízes desse mesmo inconsciente, e como se desenvolve o feto desde que é concebi­ do até ao seu nascimento . Observar a vida uterina, permite-nos entender o processo de construção do ser humano e a forma como se desenvolve, evolui e apreende a realidade física e psíqui­ca. Graças a descobertas tão revolucionárias e sofisticadas como a ecografia podemos observar em direto e ao vivo como decorre, a par e passo, o desenvolvimento do embrião até ao nascimento do bebé. Acompanhando a evolução das capacidades e compe­tências do feto, a tecnologia de hoje dá-nos conta da complexi­dade do seu mundo sensorial, bem como a relação estabelecida com a mãe e não só. Avaliar a inAuência da interação do feto com o ambiente externo também é possível , ou seja, podemos perceber a forma como o feto vai sentindo, à medida que se de­senvolve, as descontinuidades entre o “dentro” e o “fora”, e os processos que estão na base da sua vida psíquica.

 

O DESPERTAR DOS SENTIDOS

Enquanto está no ventre da mãe, o feto já tem uma série de competências físicas e psicológicas, afirmam cientistas e psicó­logos, o que significa que a aprendizagem, ligada à crescente maturação do sistema nervoso, começa cedo. Nos primeiros meses de desenvolvimento, o feto ainda não tem consciência do seu meio ambiente, mas vai descobrindo o seu próprio corpo. Mexe-se em todas as direções desde os primeiros meses, mas só ao terceiro mês, quando o seu sistema nervoso adquire maior maturidade, é que os seus movimentos se tornam progressiva ­ mente mais coordenados. Agita então os seus membros e explo­ra a capacidade dos seus músculos e das suas articulações. Um pouco mais tarde, odores, sabores, sons e imagens impregnam o universo físico do feto, enquanto ele flutua e cresce.

Sabe-se que, dentro do útero, o feto recolhe, em permanência, uma série de ruídos. Em primeiro lugar, os sons biológicos que se produzem no corpo da mãe, como os barulhos gastrointesti­nais, o som da respiração e as batidas cardíacas. Depois vêm os sons do exterior, como a voz da mãe, e depois do pai, tal como os ruídos ambientais. No entanto, nas primeiras semanas de gravidez, o sistema auditivo do feto ainda não está suficiente­ mente desenvolvido para funcionar em pleno. Só à 28.ª semana começa a reagir a um som exterior produzido perto da mãe. A partir da 35. já consegue distinguir um som agudo de um grave. No final da gravidez, ruídos muito fortes, como a música numa discoteca, têm o efeito de o sobressaltar ou acelerar o seu ritmo cardíaco. Ouve também distintivamente vozes que falem alto, no seu ambiente mais próximo. De todas, a que melhor ouve é, sem dúvida, a da mãe, porque esta lhe chega mais diretamente, sem ser filtrada pelo ar.

COMPETÊNCIAS PSÍQUICAS E EMOCIONAIS

As competências físicas, juntam-se as psíquicas. Quando nas­ce, o bebé está longe de ser tábua rasa, como já referido, no que diz respeito às emoções, às perceções, à inteligência, aos afetos, a elementos de temperamento que, segundo alguns autores, irão estar na base da personalidade, de motivação, inteligên­cia e formas de aprendizagem. Na base de todos nós, está, evidentemente, uma forte componente genética,  mas o de­senvolvimento fetal, tal como o crescimento e desenvolvimento posterior do bebé, serão afetados, como já se disse, pela influên­cia da relação íntima com a mãe e com a interação com o meio exterior próximo .

Sobre a interação entre o feto e a mãe, a questão da “troca” emocional vivida entre os dois tem sido exaustivamente avalia­ da. Desde logo, sabe-se que o stress que a mãe possa sentir em certos momentos da sua gravidez é dos fatores de maior influên­cia no estado emocional do feto. Reflete-se não só na relação que a mãe estabelece com o feto, como este é igualmente afetado pelos próprios sintomas da mãe, como a angústia, por exemplo, e que no feto se manifesta de diversas formas, como aceleração do batimento  cardíaco, da pressão  arterial, sudorese, tremores

ou dilatação da pupila, produção de substâncias como a adrena­lina e a dopamina que atravessam a placenta e chegam ao feto, provocando- lhe sofrimento, ou seja, fica triste, deprimido ou alegre, conforme o estado de espírito da mãe. Alguns autores defendem que, se o estado emocional negativo da mãe persiste por tempo prolongado, e se o stress, ansiedade ou tristeza forem constantes, o feto acaba por ser marcado fisiologicamente por essa depressão, tendendo a proteger-se, o que atua como uma defesa contra a dor. Se as perturbações emocionais da mãe per­sistirem, os bebés podem nascer inquietos, com falta de apetite e cólicas, podendo apresentar baixo peso e agitação. Contudo, se o sobressalto e mal-estar da mãe forem passageiros e pontuais, os efeitos não serão marcantes. A satisfação, a descontração e o bem-estar da mãe são extremamente benéficas para o feto. A relação emocional entre o feto e a mãe reflete-se mais tar­de, apresentando o recém-nascido hipersensibilidade ou baixa sensibilidade à estimulação, o que lhe retira a tranquilidade e o equilíbrio. A relação emocional é recíproca é e clara: o “tempo do útero”, dizia Bonomi*, “é o registo maior e mais fiel da in­dividualidade, e o requisito básico para obter o grande tesouro que o ser humano mais deseja – a felicidade – pois é no útero que se aprendem as primeiras lições de amor”. •

TODOS OS FETOS TÊM O DIREITO DE:

A. Viverem apesar das dificuldades;

B. Serem poupados de conflitos familiares;

C. Terem um útero saudável;

D. Serem respeitados como um indivíduos;

E.  Não serem sujeitados;

F. Terem segurança emocional;

G.  Serem respeitados pelo médico que os trouxer ao mundo;

H.  Terem atenção especial e concreta;

1. Viverem no útero o tempo que desejarem;

J.  Não serem agredidos pela ansiedade;

K.  Não serem atingidos pela depressão;

L Serem amados acima de tudo.

·Da autoria de Bonomi, A. (2002), “Pré-natal hu­manizado: Gerando crianças felizes Atheneu São Paulo.

Dados recolhidos nos livros “A Maternidade e o Bebé da autoria de Eduar­do de Sá, psicólogo e investigador no âmbito do reto e do bebé, e ‘Psico­logia do Feto e do Bebé”. de Eduardo de Sá. em colaboração com outros autores. Editora Fim de Século.

POR: ANA VIEIRA DE CASTRO