“Terapia da Fala é para quem fala mal.” Será… só isso?

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A designação de Terapia da Fala é bastante redutora. O terapeuta da fala é (T.F) é um técnico superior de saúde especializado em prevenir, avaliar e tratar dificuldades de fala, é certo, mas não só.

Previne, avalia e trata também competências relacionadas, como a comunicação, a linguagem, o processamento auditivo, a voz e outras competências orais, como a mastigação, a deglutição e a motricidade orofacial. 

“Fala, comunicação, linguagem, processamento auditivo, voz, mastigação, deglutição e motricidade orofacial – como assim?”

Antes de falar, a criança armazena, através dos sentidos, memórias no seu cérebro. Desenvolve a atenção auditiva e reage ao que ouve, ou seja, comunica através das expressões faciais, do riso, do choro, de gestos e de vocalizações.

Depois desenvolve competências de interação social, como tomar a vez, partilhar, imitar, sorrir em resposta a um sorriso. Passa a compreender palavras, posteriormente experimenta exprimir-se através da fala e com a repetição aperfeiçoa a articulação e desenvolve a linguagem.

Todos estes processos surgem naturalmente de forma hierárquica e de acordo com algumas condicionantes, como os antecedentes familiares, ocorrências natais e perinatais, patologias crónicas, o meio em que a criança está inserida, as experiências sensoriais, os estímulos apresentados, o feedback que recebe, entre outros.

Continuam a desenvolver-se com vínculos entre si e a atenção auditiva precisa de estar sempre presente.

A fala contempla funções cerebrais, funções auditivas periféricas e centrais (ouvir, localizar, distinguir, reconhecer, memorizar e perceber), funções motoras (coordenação de movimentos sequenciais para a articulação), funções respiratórias e vocais (uso da respiração para falar). 

É pela relação entre todas as estruturas envolvidas e as suas funções que o T.F. é o profissional responsável por todas estas áreas. 

A comunicação existe em todos os seres vivos e é preponderante na relação com os outros. Como disse Daniel Webster, “se perdesse todas as minhas capacidades, todas elas menos uma, escolheria ficar com a capacidade para comunicar, porque com ela depressa recuperaria todo o resto”.

Quando uma criança não desenvolve a fala, precisa de ajuda para desenvolver uma comunicação eficiente. A comunicação dá-se através de diversos recursos, nomeadamente das expressões faciais e dos gestos como foi referido anteriormente, mas também através de sistemas de comunicação por meio de imagens que permitem desenvolver uma boa linguagem. 

Quando se faz referência à linguagem, é necessário salientar que envolve expressão e compreensão, tanto oral como escrita. Assim, o T.F. ajuda a melhorar o modo como a criança se expressa oralmente, bem como a melhorar a compreensão do que ouve e, em idade escolar, ajuda a melhorar a expressão escrita, assim como a compreensão do que lê.

Infelizmente, perturbações da linguagem ou perturbações de aprendizagem (como a dislexia) são muitas vezes ignoradas e a criança sofre um percurso escolar rotulada de “preguiçosa” ou “desinteressada”, sem que lhe seja dada a ajuda adequada.  

Dificuldades na compreensão que levam a criança a pedir variadas vezes para repetir, dificuldades em ouvir e/ou compreender em ambientes ruidosos, substituições de sons na fala, dificuldades na discriminação de sons, dificuldades em identificar sons mais baixos em palavras, omissão de letras na escrita, são indicadores de que se pode estar perante uma Perturbação do Processamento Auditivo Central.

Com o abuso e o uso inadequado da voz, as crianças desenvolvem perturbações vocais e a rouquidão é a mais comum. Após o diagnóstico do médico otorrinolaringologista, o T.F. é responsável pelo tratamento da voz.

A mastigação e a deglutição são atos que se realizam quase de modo automático. No entanto, existem alterações nas quais é necessário ajudar. Crianças com patologias crónicas beneficiam muito com o trabalho em equipa multidisciplinar em que o T.F. dá o seu contributo nesta área. 

Também em casos de dificuldades articulatórias é essencial que se averigue a necessidade de ajustes na mastigação, uma vez que os músculos e estruturas orofaciais envolvidas na fala são as mesmas na mastigação. O mesmo se verifica em tratamentos ortodônticos, que poderão evoluir em recidivas se novos hábitos orais não forem estabelecidos. 

Ao pensar em hábitos orais, associa-se automaticamente a motricidade orofacial. Este é o termo utilizado quando o assunto envolve a musculatura facial e intraoral, que se pretende que esteja em equilíbrio e harmonia com as funções envolvidas.

Tal como acontece na mastigação e na deglutição, podem surgir desajustes decorrentes de dificuldades em respirar pelo nariz ou de vícios orais (mamar na chupeta, no biberão, no dedo, nos lábios, nas bochechas ou até na própria língua).

Quando é adotada uma postural labial inadequada, o crescimento das estruturas faciais dá-se desarmoniosamente. Também em casos de dificuldades articulatórias, a intervenção pode passar pela associação de exercícios de motricidade orofacial. 

Quando recorrer a um Terapeuta da Fala?

Quando a criança mostra dificuldades em algumas das áreas que foram aqui referidas recomenda-se que consulte um T.F., visto que este é o profissional qualificado para o orientar. 

É fundamental dar as ajudas adequadas atempadamente de forma a melhorar, colmatar ou até prevenir outras dificuldades, como acontece na escola, que muitas vezes se torna um percurso custoso.

Através da terapia criam-se novas conexões neurais que se desenvolvem à medida que é feito um trabalho específico, com objetivos bem definidos. 

Muitas vezes a criança tem várias necessidades e a intervenção em equipa multidisciplinar proporciona melhores resultados, uma vez que são identificadas prematuramente todas as dificuldades da criança e a intervenção inicia precocemente nas áreas necessárias. 

POR: Madalena Carvalho Terapeuta da Fala na Clínica Médica Nau Saúde (C-041308182)

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