Tempo…socorro preciso de tempo!

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people, time management and children concept - smiling girl holding big clock showing 8 o'clock over holidays lights background

Tic tac tic tac… o relógio não pára… e o tempo vai andando, os dias chegam ao fim, as semanas voam e os filhos crescem

Tempo?

Temos tempo?

Não podemos fazer magia nem esticar os dias, mas temos de ter consciência que nós e os nossos filhos precisamos de tempo. Tempo em que estamos uns para os outros.

Nesta altura alguns de vocês pensam: “se soubesse à hora a que eu chego a casa, e o que ainda tenho para fazer, não me falava bem assim”.

Mas não é de tempo só para eles que eu falo, é de tempo com eles!

Desde que os acordamos que começamos logo com instruções (rápidas): veste-te, calça-te, olha o cabelo e a cara, toma o pequeno almoço, lava os dentes, vá, já estamos atrasados, garagem, carro, infantário/escola, beijo filhos que já estou em cima da hora, corre lá… depois quando os voltamos a ir buscar começamos o inverso… sempre com instruções dadas ao nosso ritmo, em ritmo de corrida contra o tempo.

Há dias uma amiga contava-me que a filha com 4 anos, quando vai para a cama, só quer conversar e acrescenta sempre: mais uma coisa mãe… e outra que me esqueci de te contar… olha e agora é mesmo a última…

“E isto não será saudável e importante?” – perguntava eu.

“Pois, mas só se lembra disso quando vai para a cama, enquanto está a ver televisão não se lembra!”

Bate certo! Enquanto está ocupada “mentalmente” não tem tempo para se lembrar e contar essas pequenas grandes coisas do dia a dia. Quando pára, deitada e de luz já apagada o cérebro acende a sirene das novidades e processa a informação que tem de ser ouvida por alguém!

Precisamos de ajudar os nossos filhos a viverem no ritmo deles.

Haja tempo para os deixarmos espreguiçar e ficar mais um bocadinho enrolados no edredão, tempo para comerem ao ritmo deles, tempo para tomarem banhos demorados, com bonecos e bonecas, todos em modo banho.

Tempo para adormecerem no sofá.

Tempo para acordarem na cama dos pais.

Tempo…

Não pode ser todos os dias. Claro que não!

As vidas da maior parte de nós pais não o permite. Mas sempre que conseguirmos (ao final do dia às vezes é mais fácil) deixemos que gozem o tempo deles connosco.

Que nos ajudem a pôr a mesa, mas na rapidez deles, que nos ajudem a abrir a porta da garagem com a pequenina força deles juntamente com um bocadinho da nossa, que participem nas conversas ao jantar (mesmo que possam ser aparentemente só assuntos de adultos podemos sempre dar um jeitinho para os introduzir na conversa – “sabes que hoje na empresa o pai teve uma reunião muito importante com um senhor que só falava inglês?” Podemos até seguir a conversa com palavras em inglês e ver a cara de espanto deles… os risos que soltam até perguntarem o que estamos para ali a dizer!). Mas devemos tentar que o tempo seja no registo do tempo deles. E deixar que falem também das coisas deles, mesmo que em algumas fases com personagens fantasiadas e amigos de peluche!

Antes dos 6/7 anos a noção de semana, dia, hora e minuto não está desenvolvida em todas as crianças, mas podemos ajudar a que percebam que há tempo para correr e tempo para parar.

Ensinar-lhes que há tempo para falar e tempo para ouvir.

Tempo para chorar e tempo para rir.

Tempo para fazer silêncio e tempo para cantar.

E tempo para não fazer nada, já lhes ensinamos?

Hoje os nossos alunos não sabem não fazer nada, não sabem esperar pelo colega que ainda não terminou a tarefa, não sabem não estar ocupados, não sabem estar parados a ver quem passa, a ver as nuvens ou a ouvir os pássaros. E isso também não se ensina numa aula: “meninos, agora todos olham lá para fora e têm dois minutos para ver as nuvens…”

porque como a tendência de hoje é avaliar (tudo), lá viria o resto da frase em jeito de competição:

“De seguida têm 5 minutos para desenhar o que viram e os três melhores desenhos serão expostos…”

Nas palestras que faço partilho muitas vezes com os pais desta necessidade que, enquanto famílias, devemos procurar transmitir… ensinar os miúdos a não fazerem nada.

A estarem só a ouvir o silêncio ou a pensar (colocar o nosso filho a pensar antes de tomar uma decisão, pensando na decisão e nas consequências que dela virão, ou quando algo não foi bem feito deixa-los a pensar, não necessariamente sozinhos, pode ser connosco pais, ajudar a que se expliquem, que transmitam as emoções que lá vão dentro, porque isso mexe com a consciência e com o coração deles e tantas vezes acaba por nos surpreender com o que nos dizem).

Porque quando lhes tiramos a televisão e os tablet normalmente vem a frase: “Então, mas assim fico sem nada para fazer!”

Precisamos que os cérebros deles ainda pequeninos se habituem a parar. A parar para não fazer aparentemente nada.

A observar.

A imaginar.

A esperar.

A admirar.

A estar assim…

Se isto vai ser importante na sala de aula de matemática? Vai! Nem imaginam quanto!!

Tic tac tic tac…

Por: Inês Cruz_ Mãe e Professora de Matemática