Sustentabilidade e uma consulta sem queixas

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De relance, reabilitação e sustentabilidade em nada se relacionam: se esta remete para “conservar”, aquela diz respeito ao que se pode fazer depois do dano

Desta forma são mesmo antíteses, porque uma fala-nos de evitar o dano e a outra pressupõe que ele exista.

No entanto, com a sustentabilidade a ganhar um outro significado e relevância na nossa sociedade, cada vez mais este conceito toca nas diversas faces da nossa vivência, nomeadamente na saúde e na relação com o nosso corpo.

Explico. 

Ser sustentável é interagir com o mundo de forma a garantir preservação do meio ambiente, para que as próximas gerações não tenham o futuro comprometido.

Porque queremos que os nossos filhos, netos e bisnetos tenham acesso às melhores condições de vida possíveis – que não existirão se a sua saúde estiver prejudicada como consequência da ausência de recursos ou alterações climáticas. 

Dentro deste assunto, muito se poderia discutir acerca da sustentabilidade dos próprios recursos de saúde, de como ter serviços mais eficientes para que, gastando menos recursos, possamos garantir qualidade às gerações futuras.

Obviamente não domino a temática para o fazer, no entanto, acho interessante refletir acerca do papel da reabilitação na manutenção da saúde.

Considerada muitas vezes o parente pobre dos serviços de saúde, por requerer tantos recursos humanos e cuja eficiência é de difícil avaliação, a reabilitação não recebe a atenção (e o investimento) devidos.

No entanto, sabe-se que uma pessoa internada num hospital sairá dele mais rapidamente se fizer reabilitação: reduzir dias de internamento é reduzir riscos de infeção, reduzir gastos e, claro, reduzir sofrimento.

Assim, esta ideia de sustentabilidade em saúde e a reabilitação parecem um pouco mais próximas, verdade?

Vou um pouco mais além. E se pensarmos na nossa sustentabilidade, ou seja, a de cada um de nós?

Não valerá a pena procurar formas de preservar o nosso “meio ambiente” interno de forma mais eficiente? Sou suspeita, mas tudo me leva a crer que sim.

Se dedicarmos algum tempo e atenção ao nosso bem-estar, garantindo que nos alimentamos com o necessário (excluindo o que não nos faz falta e, assim, nos tira eficiência) que nos movemos como o nosso corpo necessita, criamos condições para resistirmos às “intempéries”.

Creio que é esta a lógica por detrás do aumento importante que a prevenção de lesões tem ganho no mundo da reabilitação. Porque se percebeu que aquele ditado “melhor prevenir do que remediar” é bem verdade no que diz respeito ao nosso corpo.

Não é por acaso que os clubes desportivos investem cada vez mais em bons programas de prevenção de lesões e, no que toca a eficiência energética, eles são especialistas.

Há uns anos, recebi em consulta uma senhora na casa dos 70 anos sem queixas – coisa rara. Porque me procurava? – perguntei. Disse-me que há muitos anos que gostava de, esporadicamente, dedicar algum tempo a realinhar-se, reequilibrar-se de forma a nunca chegar a ter dores ou queixas. 

Esta atitude, apesar de me fazer todo o sentido porque é isso que advogo, não deixou de me surpreender pela sua raridade. Desde então, uso o seu exemplo quando quero motivar quem recebo em consulta e me procura “no limite”. 

Porque, de facto, será sempre mais sustentável sabendo que tenho uma escoliose, procurar tratá-la ou compensá-la antes que ela desencadeie dores.

É mais sustentável fortalecer a minha anca que sei que já está “desgastada” antes que tenha que a substituir por uma prótese. É mais sustentável perceber se esta dor de cabeça que me chateia tantas vezes e me faz tomar tantos comprimidos tem alguma coisa a ver com a minha cervical ou a minha falta de vista. 

Tal como essa senhora me ensinou, e ao contrário do que poderia pensar porque estava a gastar tempo e dinheiro quando não tinha queixas absolutamente nenhumas, amarmo-nos, preocuparmo-nos proativamente com o nosso corpo, tem efeito direto sobre a nossa saúde, pode diminuir episódios de doença ou queixas e, portanto, será sempre mais vantajoso para nós e para os que nos rodeiam. 

Então, procuremos esse equilíbrio através das ferramentas que mais sentido nos fizerem. 

Afinal, mantermo-nos saudáveis e em homeostase (o nosso equilíbrio interno) talvez seja uma das formas mais importantes de advogarmos a sustentabilidade.

POR: Ana Margarida Monteiro _ Fisioterapeuta