O sinuoso caminho da infertilidade: um olhar da psicologia

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Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a infertilidade é uma doença do sistema reprodutivo que pode ser definida como a incapacidade de alcançar uma gravidez, ou de a levar a termo, após um ano de relações sexuais não protegidas. É habitualmente experienciada como uma crise de vida inesperada, e negativa, que pode modificar o sentido de identidade pessoal, se envolver um processo de luto por um sonho e a necessidade de reinvenção do sentido de si próprio. Neste processo, podem colidir ideais e representações sociais. O desejo de se tornarem pais, que permanece indefinidamente por concretizar, e as representações sociais muitas vezes com mensagens paradoxais: a decisão de ter filhos é uma opção, mas é muitas vezes “assumido” que é um desejo universal e possível mesmo que medicalizado. Segundo Patrão-Neves “Não há infertilidade sem desejo de procriar”. A infertilidade materializa-se quando o casal decide provar a sua fertilidade, caracterizando-se assim por ser um acontecimento significativo de vida, desejado, mas que não ocorre, e que traz consigo um enorme sofrimento emocional e uma enorme frustração. Todavia, o impacto do diagnóstico vai naturalmente depender do significado que cada elemento do casal atribui à parentalidade.

Em termos do tratamento, estima-se que menos de metade dos casais com problemas de infertilidade procurem os tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA). Do ponto de vista emocional, o processo é frequentemente equiparado a uma “montanha russa”: uma alternância constante entre sentimentos de entusiasmo e esperança, e sentimentos de desespero e frustração perante a espera pelos resultados e/ou pelos sucessivos insucessos. Por esta razão, este processo, tem caraterísticas muito ansiogénicas que podem assumir a forma de stress crónico, e cujas repercussões na saúde mental são perniciosas. Embora a investigação ainda não tenha comprovado a associação entre as intervenções psicológicas e as taxas de gravidez dos tratamentos PMA, inúmeros estudos têm demostrado o seu papel na diminuição da ansiedade e melhoria da perceção de bem-estar durante as fases do tratamento. Além disso, a intervenção psicológica tem também como foco auxiliar os casais a reconstruírem os seus objetivos, significados, sonhos, e a reinventarem-se enquanto casais, focando-se no que têm, no que conseguem e não no contrário. Desta forma, o processo de tratamento, ou de eventual luto de um sonho, poderá ser sentido como menos solitário e doloroso.

POR: Daniela Nogueira_ Psicóloga clínica e psicoterapeuta

Psicóloga com cédula 1668 reconhecida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses na especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde e na especialidade avançada de Psicoterapia.

Professora universitária e coordenadora de um estudo transnacional na área do luto durante a pandemia COVID-19

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e-mail: danielaanogueira@me.com