Proponho um exercício , calma, (ainda) não é físico

0
938
Boys and girls running towards ball

Pense em Regresso às aulas

Pense agora em problemas de saúde e queixas comuns relacionadas com as crianças em idade escolar, maioritariamente dores ao nível da coluna lombar, cervical, ombros e cabeça.

Se pensou em mochilas, faz parte da maioria – os meios de comunicação social enchem-nos de imagens típicas do regresso às aulas, da escolha das mochilas e dos cadernos.

Preocupamo-nos em escolher as alças mais confortáveis, o tamanho certo, o formato mais ergonómico, esquecendo muitas vezes que não menos importante (e muito menos divulgado) é a preocupação com a carga máxima que a criança deverá transportar, a qual não deve exceder os 10% do seu peso (5% do peso de crianças em idade pré-escolar) segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Na minha infância não me recordo da minha mãe pesar a mochila e lembro-me que a quantidade de livros que era obrigada a levar era excessiva.

Lembro-me de outras atrocidades que fazia, como usar a mala a dar pelos joelhos, ou usar só uma alça não fosse correr o risco de parecer menos cool.

Era (e é) errado. No entanto, ia para a escola a pé com a minha mãe. Nos tempos livres brincava na rua e não sabia o que era um computador ou uma consola.

Portanto, e para ir de encontro ao assunto de que verdadeiramente quero tratar (provavelmente já terá compreendido), vou pousar a mochila.

Também não vou falar das recomendações de ergonomia escolar defendidas pela Direção Geral de Saúde, pela maioria de nós desconhecidas, e que deveriam ser tidas em conta na seleção de mobiliário nas escolas e em casa. Deixo isso quiçá para outro artigo.

O problema sobre o qual me proponho debruçar reside na palavra Regresso.

Regressar implica retornar à rotina. E do que tenho observado nas minhas consultas o que está errado é exactamente essa rotina.

A pergunta que mais vezes me é feita em consulta é “qual a postura ideal para estar sentado”. A minha resposta surge desoladora: nenhuma. Não existe. Nenhuma postura, ainda que ensaiada, é adequada por ser estática.

O corpo do ser-humano (seja ele criança ou adulto) foi feito para estar em movimento e a imobilidade a que nos obrigam os nossos empregos e as nossas escolas deve ser motivo de reflexão.

Claro que alguns princípios poderão ser tidos em conta para prevenir lesões ou diminuir desconforto, mas trata-se de um “tapar o sol com a peneira”.

Podemos colocar alarmes no computador do escritório para nos lembrarmos de espreguiçar, os intervalos da escola também colmatam esta inactividade (se bem que muitos deles são aproveitados pelas crianças para jogar mais um pouco no telemóvel) mas apenas atenuamos o problema.

Peço-lhe agora que pense no que faz e no que põe as crianças a fazer depois de sair do trabalho.

Se a maioria das actividades de que se lembra inclui a posição de sentado, também faz parte da maioria. Muda a postura e o local, mas o sedentarismo mantém-se. Muitos trabalhos de casa, muitas horas no sofá, jogos em que apenas participam os músculos das mãos e dos olhos.

É este sedentarismo – no trabalho, na escola e em casa – que está na base da maioria dos motivos de consulta uma vez que são as restrições de mobilidade que perturbam o normal funcionamento do nosso corpo.

Este facto tem-se tornado tão evidente para mim, mas continuo a sentir necessidade de o abordar. Porque mais facilmente trato uma entorse de uma criança que correu de mais e torceu o pé, ou um ombro de um senhor que joga ténis do que soluciono as dores lombares de alguém que passa 80% do seu dia sentada numa secretária ou num sofá.

Todos já ouvimos falar sobre os benefícios da actividade física na prevenção de doenças (nomeadamente as cardiovasculares) e na promoção da saúde dos adultos.

Mas nas crianças estamos a falar de bem mais do que isso: trata-se da aquisição de competências motoras e cognitivas, desenvolvimento cerebral, relacionamento interpessoal e autoconfiança, liberdade e responsabilidade.

A actividade física dá às suas crianças tudo isto. Então, porque não juntar o útil ao agradável e fazê-lo simultaneamente?

Planeie a sua semana privilegiando brincadeiras no exterior, jogue às escondidas ou à apanhada, pegue numa bola ou numa corda e vá para o parque, largue o carro e pegue mais na bicicleta, dance, pule. São apenas algumas ideias, as hipóteses são infindáveis e devem ter em conta os interesses da família.

Portanto, quando se preocupar na escolha da mochila, na adaptação da secretária, na marcação de actividades extra-curriculares para os seus filhos, venho pedir-lhe que não se esqueça de colocar a actividade física no seu calendário semanal pessoal e familiar.

Tal como pressagiava a primeira frase, venho pedir-lhe que pense em exercício físico.

Para que Setembro não seja apenas um regresso, antes um recomeço.

POR: Ana Margarida Monteiro (Fisioterapeuta)