Pai Ou Pediatra?!

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– Confissões de um pai que, às vezes, é pediatra… Conselhos de um pediatra que não deixa de ser pai!

​​​Ser pai?!

Aqui há umas semanas atrás, após zangar-me injustamente com a minha filha mais velha de sete anos, fui pedir-lhe desculpa. Depois de escutar as minhas palavras, colocou a sua mão na minha face, e respondeu-me: “Deixa estar pai. Todos nós cometemos erros. O importante é reconhecê-los!”

Naquele momento perguntei-me quem seria a criança e quem seria o adulto! E se as palavras da pequena revelavam um grau precoce de inteligência emocional, “salpicada” de sarcasmo, não pude deixar de pensar que alguma coisa devemos andar a fazer correctamente enquanto Pais!

Quando soube que ia ser pai pela primeira vez, foi simultaneamente o momento mais feliz e mais assustador da minha vida. Acho que pânico será a melhor palavra para descrever a imensidade de emoções que me varreram o coração! Tenho a certeza que foi, naquele momento, que comecei a ter cabelos brancos, com a preocupação imediata de ter uma pequena criatura totalmente dependente de mim, não só para comer e mudar fraldas, mas também para a ensinar a viver neste mundo, incutindo-lhe sentido de ética, justiça e bondade.

Na altura lembro-me de pensar: “Bem! Já sou pediatra, portanto já sei algumas coisas sobre educar uma criança e não será assim tão difícil!” Pois não poderia estar mais errado! Nada, mas mesmo nada, nos prepara para o momento maravilhoso que é sentirmos parte de nós a entrar na nossa vida e aprendermos a viver o dia-a-dia com um pequeno ser que nos admira, imita e ama incondicionalmente.

Todos estes anos a aconselhar os pais com as mais recentes técnicas de puericultura e abordagem comportamental e do desenvolvimento psicossocial da criança, revelaram-se insuficientes, pois cada criança é verdadeiramente um livro aberto e não se rege por nenhum livro de instruções! E aquele comentário que tantas vezes ouvi dos pais: “Ó Dr. Pedro, falar é fácil, fazer é que é o mais complicado!” revelou-se uma premonição certeira! Ser Pai está nos nossos genes e no nosso coração e os filhos crescem a ser exactamente aquilo que os pais os ensinam a ser.

A parentalidade é viver num misto de felicidade, loucura, angústia e culpa diária, sem saber se o que estamos a fazer é o mais correcto. É ter momentos em que só nos apetece fugir ou entregar os pirralhos para adopção, para logo em seguida descobrir que não sabemos viver sem eles! É precisar de um minuto de silêncio, para depois sentir falta da gritaria constante! É descobrir o quanto o corpo humano aguenta sem dormir, para depois, quando finalmente dormimos, acordarmos com uns pequenos dedos a abrirem-nos as pálpebras e a dizer que já é de dia! É assistir à possessão demoníaca de uma birra aos dois anos causada pela frustração de não terem tudo o que querem, mas também descobrir a felicidade que sentimos com as suas pequenas conquistas.

Ser Pai é exactamente isto. E acima de tudo, é perceber que todos nós erramos neste nosso caminho de ser Pais! Mas que o que importa é reconhecer e aprender com os erros, seguindo em frente!  E se a uma grande dose de paciência, aliarmos bom senso e amor incondicional, então, garantidamente, só pode correr bem!

Pedro Sampaio Nunes_Pediatra

Escreve em nota: o autor não escreve ao abrigo do acordo ortográfico, pois não o entende