Os avós também falam sobre finanças

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O vasto saber e os ensinamentos dos avós, donos de uma grande experiência de vida, podem ser uma fonte de sabedoria na vida dos netos e especialmente na educação financeira dos mais jovens.

Segundo um estudo publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, chamado “A prestação de cuidados pelos avós na Europa”, os países do sul da Europa, entre os quais Portugal, são os que apresentam uma maior percentagem de avós a cuidar dos netos a tempo inteiro. Deste modo, além dos pais, também os avós assumem um papel fundamental na educação dos netos e são, muitas vezes, um grande apoio no momento de cuidar das crianças. Não são raros os casos em que até chegam a passar mais tempo com as crianças do que os próprios pais que trabalham durante grande parte do dia.

No que ao dinheiro diz respeito, os avós podem também ser uma figura exemplar de educação financeira, sendo mesmo através deles que algumas crianças começam a ter os primeiros contactos com as noções do que é o dinheiro. Embora tenham uma conhecida tendência para serem mais benevolentes com os netos do que foram com os filhos, é neste momento que uma cooperação entre pais e avós é crucial para ensinar às crianças os princípios básicos de uma vida económica saudável, pois é importante não serem passadas mensagens contraditórias aos mais jovens.

As crianças tendem, frequentemente, a pedir para comprar brinquedos ou guloseimas e, nestas situações, é importante que os avós não cedam, ou pelo menos que não o façam sistematicamente porque as crianças devem aprender que é preciso esperar por certas ocasiões, como o Natal ou o seu aniversário, para receberem presentes. Este tipo de educação financeira permite que comecem a perceber que para ter certas coisas é preciso esperar, esta que é a base do mecanismo do saber poupar e que lhes será muito útil quando atingirem uma idade mais madura e responsável.

A escolha de atribuir uma mesada à criança quando já tem idade suficiente para a receber, ajuda-os a gerir um orçamento e a ter consciência dos gastos, pelo que, nesta fase, é importante os avós serem conhecedores e respeitadores das regras definidas pelos pais. Assim, as crianças aprendem a controlar responsavelmente as suas despesas em função do dinheiro que têm disponível, sabendo que se o gastarem na totalidade, vão ter de esperar para voltar a receber e os avós não os vão socorrer financeiramente.

Com isto não quer dizer que os avós não continuem a mimar os seus netos, aliás é normal que o façam, mas em vez de lhes oferecerem brinquedos podem utilizar o dinheiro para aplicá-lo numa conta poupança que os ajude, por exemplo, quando forem para a universidade. Ou dar-lhes diretamente o dinheiro incentivando-os a colocar num mealheiro para futuramente atingirem um objetivo de poupança maior, como a compra de uma bicicleta. Desta forma, as crianças aprendem que poupar permite-lhes comprar algo que queiram a longo prazo motivando-os a economizar em vez de gastar imediatamente em guloseimas ou jogos.

Os avós desempenham igualmente um papel ativo na educação financeira dos mais jovens quando partilham as suas próprias experiências relativamente ao dinheiro, por isso, ao contarem certas histórias e situações difíceis em termos económicos nas suas próprias vidas e ao mostrarem como geriram e pouparam ao longo dos anos, pode ser criado um impacto substancial na visão dos netos quanto à poupança.

Em tempos dominados pela tecnologia, as crianças na fase da adolescência ou pré-adolescência, podem mesmo auxiliar os avós a inteirarem-se das ferramentas digitais existentes e que podem também facilitar os mais velhos a poupar, gerir ou investir o seu dinheiro. Esta pode ser uma experiência de aprendizagem mútua entre avós e netos que traz benefícios e ensinamentos sobre dinheiro a ambas as gerações.

Dra. Susana Albuquerque

Coordenadora de educação financeira da ASFAC – Associação de Instituições de Crédito Especializado