O desafio de educar na era digital 

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Large group of busy kids, boys and girls looking at their phones texting sms and playing staying outside in the field on bright sunny summer day

Num tempo em que a digitalização tomou um rumo sem retorno, há que entrar no processo de adaptação e tirar o melhor partido do que as novas tecnologias têm para oferecer na educação

Os desafios estão aí, as ferramentas estão à disposição e nós damos uma ajuda para entrar com o pé direito nesta nova era.

A tecnologia veio para ficar. Mas para tudo tem de haver um peso e uma medida, até porque têm sido vários os estudos divulgados sobres os efeitos nocivos da excessiva exposição aos ecrãs, especialmente para fins que não são os mais indicados no processo de crescimento e desenvolvimento de uma criança ou adolescente. 

Mas vamos por partes. Educar na era digital tem sido, de facto, um verdadeiro desafio. Por um lado, as gerações mais velhas veem-se obrigadas, e por vezes com alguma dificuldade, em acompanhar as tendências que vão surgindo, no sentido de não perderem a carruagem ao que se vai passando na vida dos filhos ou educandos; por outro, têm de gerir de forma muito sensata o tempo de utilização por parte dos filhos de todos estes novos gadgets que vão surgindo, tentando tirar deles o melhor que têm para dar.  

O ensino híbrido e interativo

Cada vez mais, é a própria escola que vai promovendo e incentivando esta transição digital, apesar de muitos pais e encarregados de educação não se mostrarem ainda muito recetivos à mudança.

A caderneta do aluno já se trabalha no computador; os trabalhos de casa e mesmo algumas fichas de trabalho já são feitas recorrendo a essa mesma ferramenta; os manuais escolares já incluem QR Codes ou ligações para conteúdos digitais que complementam as matérias curriculares.

Enfim… estamos claramente perante um modelo de ensino cada vez mais híbrido e interativo e em fase de transição digital, num processo que foi acelerado face ao contexto de pandemia.

A luta para tirá-los da frente do ecrã

Aqui começam os dilemas dos pais. Aqueles que têm estado a tentar fazer de tudo para que as crianças e os jovens passem menos horas a jogar ou a ver vídeos em frente aos computadores vão ter agora de incentivá-los a voltarem a eles, mas para estudarem! 

A primeira parte não é pacífica, a de reduzir as horas de olhos postos em tablets, computadores ou telemóveis a jogarem ou a verem vídeos. Mas são vários os especialistas que já têm dado uma ajuda nessa área. Uma delas é Isabelle Filliozat, uma psicóloga clínica especializada em parentalidade positiva.

O que muitas vezes sucede é que quando estão a jogar, crianças e jovens raramente ouvem os adultos, “mergulhando” num mundo de ficção, que muitas vezes é abruptamente interrompido ou porque chega a hora de ir para a mesa, ou de tomar banho, ou de sair, ou de dormir, ou porque sim.

Regra geral, aquele aviso “daqui a cinco minutos desligas isso”, entra por um ouvido e sai pelo outro, porque eles estão noutro mundo. A forma como o “tempo de ecrã” termina causa quase sempre choros, birras ou amuos. Autora de muitos livros sobre educação infantil e uma referência na área da parentalidade positiva, a francesa Isabelle Filliozat sugere um método que pode ajudar a acabar com gritos e choros.

Explica ela: “Alguma vez faltou a eletricidade quando estavam mesmo para marcar um golo num jogo de futebol? Ou o seu filho carregou no off mesmo quando os protagonistas da comédia romântica finalmente se iam beijar? Ou ficou sem bateria quando ia matar o extraterrestre e ia subir de nível? É difícil sair do estado de prazer, que é o que o ‘tempo de ecrã’ cria nos nossos cérebros. É difícil para os adultos. Para uma criança, pode ser terrível. Literalmente”, explica Isabelle Filliozat. Porquê?

“Quando nós, seres humanos (não apenas crianças!) estamos absorvidos num filme ou a jogar um jogo de computador, estamos, mentalmente, num outro mundo. Os ecrãs são hipnóticos para os nossos cérebros. A luz, os sons, o ritmo das imagens colocam o cérebro num estado de transe. Sentimo-nos bem e não queremos fazer mais nada. 

Durante esses momentos, os nossos cérebros produzem dopamina, um neurotransmissor que alivia o stress e a dor. Tudo está bem – isto é, até que o ecrã seja desligado. Os níveis de dopamina no corpo caem rápido e sem aviso, o que, literalmente, pode criar uma sensação de dor no corpo. Esta queda nas hormonas, esse choque físico, é quando o ‘tempo de gritos’ das crianças começa”.

Assim, para a especialista, não resulta que os pais sejam bem claros que agora é hora de apagar o dispositivo eletrónico ou que isso vai acontecer dali a cinco ou a 20 minutos, porque em frente a um ecrã a criança não vai perceber essa informação da mesma forma.

“O seu cérebro está cheio de dopamina, recorda-se? Desligar o interruptor da televisão, para a criança, pode ser igual a uma dor física. Não está a dar-lhe literalmente uma bofetada na cara, mas é, neurologicamente falando, como ela pode estar a sentir. Então, em vez de simplesmente carregar no botão de desligar, o truque é, entrar sua na zona”.

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Criar uma ponte de ligação

Assim, sempre que quiser que o tempo de jogo ou de vídeo acabou, reserve um momento para se sentar ao lado do seu filho e entrar no seu mundo. Assista televisão com ele, ou sente-se com ele enquanto este joga. Não precisa ser muito tempo, meio minuto é suficiente. Apenas compartilhe a sua experiência. 

Então, faça-lhe uma pergunta sobre isso. “O que estás a ver?” Pode funcionar para algumas crianças. Outras podem precisar de perguntas mais específicas. “Então, em que nível estás agora?” Ou “Essa é uma personagem engraçada. Quem é?” Geralmente, diz Isabelle Filliozat, as crianças adoram quando os pais se interessam pelo seu mundo. 

Se eles estão muito absorvidos e não lhe ligam, não desista. Deixe-se estar com eles mais um momento e então faça outra pergunta.

Uma vez que a criança começa a responder às suas perguntas ou lhe diz algo que ela viu ou fez no ecrã, significa que está a sair do mundo de fantasia e a voltar para o mundo real. Está a sair do estado de transe e a voltar para uma zona onde está ciente da sua existência – mas devagar. A dopamina não cai abruptamente, porque construiu uma ponte – uma ponte entre onde ela está e onde você está. Podem começar a comunicar, e é aí que a magia acontece.

“É nesse momento que pode começar a dizer ao seu filho que é hora de comer, de ir tomar banho ou simplesmente que a hora de televisão já acabou. E graças àquele minuto de flexibilização, o seu filho estará num espaço onde pode ouvir e reagir ao seu pedido. Ele pode até, suavemente, voltar ao mundo real, e está tão feliz com a atenção dos pais que ele próprio quer desligar a televisão, o tablet ou o computador”. 

Ver no “inimigo” um verdadeiro aliado

A partir do momento em que estão estabelecidas as regras de exposição a ecrãs para fins que não os educativos, há que explorar as ferramentas que tem disponíveis e que o seu filho tanto gosta para proveito de todos.

Ou seja, há que motivar as crianças e os jovens a procurarem jogos, aplicações e vídeos que complementem as matérias que estão a aprender nas aulas, que sejam educativos, que tenham exercícios, e que de alguma forma promovam o sucesso escolar e enriquecimento da cultura geral. Não há apenas jogos de tiros e corridas de carros, nem apenas vídeos das quedas mais malucas do mundo.

Há que saber tirar partido do domínio que eles já fazem destes dispositivos e encaminhá-los para o que realmente interessa. Tenha sempre em atenção, nomeadamente no que diz respeito a apps, de alertá-los para o facto de algumas delas poderem ter custos associados. Por isso, de preferência, acompanhe o processo. 

Sinais que podem ajudar a identificar uma dependência 

A nova Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, a CID-11, tem previsão para entrar em vigor em 2022.

Anunciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a décima primeira revisão traz mudanças como a inclusão do ‘gaming disorder’ (distúrbio de jogos) como um problema de saúde mental.

Com a nova revisão, o vício em jogos eletrónicos entra para a lista de distúrbios de saúde mental e visa ajudar governos, unidades de saúde e pais a identificar riscos e promover tratamentos.

Fique atento a alguns sintomas identificados: 

  • Desleixo pela vida pessoal, profissional, académica e social; 
  • Sinais de irritabilidade, agressividade, isolamento e insónia;
  • Perda de controlo da frequência, duração e impacto pessoal das sessões 

Sugestão de Apps educativas 

  • Tiny Puzzle – Jogos educativos para crianças

Android

Tiny Puzzle é uma série de jogos educativos e divertidos para crianças entre os 2 e os 5 anos de idade. Estes jogos gratuitos ajudarão as crianças a desenvolver habilidades de associação, habilidades motoras táteis e finas. Inclui nomes dos animais, partes da casa, roupas, objetos, cores, meios de transporte e muito mais através da diversão e da brincadeira.

Grátis, mas com compras integradas

  • 123 Dots: Aprenda a contar

Android

Destinado a alunos do pré-escolar, o 123 Dots diverte crianças enquanto elas aprendem números de 1 a 20 com os seus amigos inseparáveis: os Dots.


O jogo inclui mais de 100 atividades educativas para a criança aprender enquanto se diverte. 123 Dots também auxilia as crianças a desenvolver habilidades básicas importantes, como criatividade, atenção e memória.

Grátis

  • Ler e Contar

iOS

Android

Aprender letras e números pode ser muito divertido. Jogo em português indicado para crianças do pré-escolar ou que estão a iniciar o 1.º ciclo do ensino básico.

Grátis

  • RelationShapes

iOS

Android

Pensado para crianças em idade pré-escolar, RelationShapes é um jogo que estimula o desenvolvimento de capacidades de resolução de problemas e raciocínio visual-espacial. As crianças movem e redimensionem formas para criar imagens divertidas.

Grátis

  • Khan Academy Kids

iOS

Android

Uma aplicação da Khan Academy destinada às crianças em idade pré-escolar (2-6 anos) e que inclui milhares de atividades educacionais, livros, músicas e jogos.
As crianças podem aprender leitura, linguagem, escrita, matemática, desenvolvimento socioemocional, capacidade de resolução de problemas e desenvolvimento motor.

Grátis

  • Multipli Minute

iOS

Android

Web

Sabes a tabuada? E ao contrário? Multipli Minute é o jogo que vai pôr a tua memória a trabalhar. O jogo está disponível para web, android e iOS e em formato físico – baralho de cartas.

É o jogo que está na origem do Campeonato Nacional Multipli, uma iniciativa nacional que abrange os 3.º, 4.º, 5.º e 6.º anos de escolaridade do ensino básico em Portugal.

No final do jogo podes consultar a tua posição no ranking, o teu record e o ranking disponível nas diversas modalidades de jogo. Quem der mais respostas certas, no menor tempo possível é quem fica mais bem classificado.

O ranking apresenta as classificações por ordem decrescente. Tenta o teu melhor tempo e partilha com os teus amigos e família!

Grátis

  • Substâncias químicas: Química orgânica, inorgânica

iOS

Android

Aprenda as 200 substâncias químicas que são estudadas nas aulas de química básica e avançada, sob a forma de um jogo:

Nomes sistemáticos e triviais.

Estruturas e fórmulas.

Compostos orgânicos, inorgânicos e organometálicos.

De ácidos e óxidos para hidrocarbonetos e álcoois.

Dois níveis: 100 compostos fáceis e 100 compostos difíceis.

Grátis, mas com anúncios (que podem ser removidos com a compra)

  • Seterra – quiz de geografia

iOS

Android

Neste jogo de mapa abrangente, pode conquistar o mundo uma região de cada vez. A app Seterra inclui mais de 300 quizzes de mapas diferentes para testar os seus conhecimentos de geografia.

Aprenda a distinguir a Tasmânia, na Austrália, da Tanzânia, em África, e a bandeira bleu, blanc, rouge, da França, das listas brancas, azuis e vermelhas da Rússia. Cidades, países, capitais, continentes e as grandes massas de água fazem parte do jogo.

Encontre o Kilimanjaro e o Monte McKinley no mundo das montanhas ou descubra ilhas exóticas em partes distantes do globo aceitando o desafio das ilhas do mundo.

Grátis, mas com versão paga.

  • Space Maths

Android

Aprende matemática com este jogo divertido. O jogo oferece 60 planetas com séries aleatórias progressivas e regressivas para cada um dos 4 níveis de dificuldade.

Em cada série é necessário encontrar os números em falta. Além disso, durante a  viagem vais percorrer várias galáxias e desfrutar de jogos de miniação.


4 níveis de dificuldade:
Fácil: 6-7 Anos
Média: 8-9 Anos
Difícil: 10-11 Anos
Muito difícil: 12 anos 

Grátis

  • Sounds: Pronunciation app

iOS

Android

Aprenda a pronunciar corretamente o inglês com esta app. A versão gratuita inclui Interactive Phonemic Charts para inglês britânico e inglês americano. Toque para ouvir um som, ou toque e segure para ouvir o som e uma palavra de exemplo.

Grátis

  • Poema do Dia

Android

Milhares de poemas e citações dos poetas mais consagrados para partilhar. Procure por tema, autor ou navegue pela seleção dos editores. Guarde as suas frases favoritas. Publicado por escritas.org, projeto sem fins lucrativos de divulgação da poesia e poetas da língua portuguesa e espanhola. Pode publicar e divulgar os seus poemas. Grátis

Fonte: Rede de Bibliotecas Escolares

Estudo: Vício em jogos atinge quase 2% da população mundial

Quase 2% da população mundial sofre de ‘gaming disorder’, uma espécie de vício por jogos, segundo um estudo publicado no Jornal de Psiquiatria da Austrália e Nova Zelândia.

A publicação pertence à principal organização que representa a especialidade nos dois países. O transtorno, silencioso e perigoso para a saúde mental de quase 154 milhões de pessoas, pode ser prevenido e tratado.

“Nos últimos anos a Organização Mundial de Saúde (OMS) te vindo a trabalhar bastante esta questão e em 2018 acabou por incluir na 11ª edição da Classificação Internacional de Doenças (CID 11) a chamada ‘gaming disorder’, explicou a psiquiatra Daniel Spritzer, citada pela CNN.
Os números apontam para um crescimento no mercado de jogos a longo prazo, que até 2023 deve alcançar os 200 biliões de dólares em faturação. 

A partir de 2022, o comportamento obsessivo associado a jogos eletrónicos poderá ser diagnosticado e tratado por profissionais de saúde mental