«Não precisei de um Companheiro para ser mãe»

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Tem 41 anos e decidiu ser mãe independente. Inês Fontoura não ficou à espera do companheiro ideal e dos objetivos em comum e engravidou para ser mãe solteira. É sem tabus, e abrindo o coração sobre as preocupações que tem em relação ao Luca, o bebé que por estes dias deverá estar a nascer, que a responsável de comunicação de um retalhista de cosméticos, nos fala desta nova fase da sua vida.

 

Em que momento decidiu ter um filho sozinha?

Não acordei de um dia para o outro e decidi ter filhos. Isto é um processo, que deverá ter durado dois anos e que decorre de uma colagem da minha história de vida … portanto, relações falhadas, depositar e investir em relações e ver que por alguma razão elas não funcionaram. Estive numa relação longa e simplesmente não aconteceu. A pessoa que estava comigo queria muito ser pai e eu não queria, portanto isso ditou o fim da relação. Ou seja, acho que foi um processo, que fui maturando de uma forma inconsciente e que me levou aos 40 anos a tomar a decisão de ser mãe sozinha. Justamente porque eu acho que:  primeiro, nós temos um prazo de validade, nós mulheres; e segundo, é possível. É possível fazer isto sozinha, os homens não têm essa sorte. Pelo menos por enquanto não podem em Portugal. E eu de facto não precisei de um homem para ser mãe. Tudo isto junto fez com que tomasse esta decisão de ser mãe independente.

O que ponderou nesse momento de decisão? Alguma vez pensou que se calhar não seria capaz de criá-lo sozinha e que isto era uma loucura?

Não. Nunca. Lá está, uma pessoa que toma uma decisão destas assim de repente. Vais ali a uma clínica ou a uma loja e fazes a criança. Não é assim. Houve muitas coisas que coloquei em cima da mesa. Criá-lo sozinha para mim nunca foi um bicho papão. Mas claro que tive de ver que redes de apoio é que tenho, se com o meu ordenado consigo ter uma criança sozinha, se tenho apoio familiar. Essas questões sim, pus em cima da mesa. Sei que criar um filho sozinha deve ser muito difícil. Mas isso não me assusta, absolutamente. Assusta-me mais, por exemplo, amanhã ficar sem emprego… e o que é que eu faço? Não é? Que tipo de educação é que eu vou poder dar ao meu filho? Que atividades extra é que eu vou poder fazer com ele? Essas coisas preocupam-me. Agora, criá-lo sozinha… há tanta gente que o faz e com menos… eu acho que não é impossível.

Qual foi a reação da sua família?

Primeiro partilhei com os meus amigos e senti um apoio enorme, porque conhecem a minha história… e portanto, só fazia sentido eu dar este passo. Depois partilhei com a minha mãe, que obviamente me apoiou. Mas fazia-lhe imensa confusão esta criança não ter uma referência paterna. Ao que eu respondi: depende da referência paterna que se tem. Porque há pais e mães que não são competentes, portanto, deviam ser proibidos até de ter filhos. As mães também às vezes tratam mal os filhos, sabemos isso todos os dias. Há pais que têm problemas graves e que traumatizam as crianças. E, portanto, esse modelo de família disfuncional a mim não me interessava. Para mim, a referência paterna era um bocadinho relativo, porque nunca se sabe muito bem o que é que vai acontecer. Não defendo que todas as mulheres tenham filhos sozinhas, mas não tendo essa metade, não vou arranjar uma pessoa qualquer, só para ele ter essa referência. Quando se tem um filho nestas circunstâncias, a de ter só por ter, com alguém é estúpido. Porque isso, mais tarde vai ser mesmo um problema. E eu conheço muitas situações de mulheres que tiveram filhos com aqueles homens, só porque sim. Hoje aquilo é um inferno.. Não queria isso para mim.

Avançaria na mesma caso não tivesse sentido apoio?

Sim, completamente. Até porque quando falei com os amigos e com a família, não foi para lhes perguntar o que achavam. Mesmo que a minha mãe me tivesse dito que estava completamente contra, eu teria avançado na mesma, porque a vida é minha e, portanto, não é a minha mãe que vai decidir isso por mim. Seria mais difícil, mas avançava na mesma.

O que pode dizer-nos do processo na clínica de fertilização?

Há vários processos diferentes dentro da clínica. Há a inseminação artificial, que foi o que eu fiz, recorrendo a um dador anónimo. Há as fertilizações in vitro, que normalmente são feitas em mulheres ou casais que têm mesmo problemas de fertilidade. E há outros tratamentos. O meu não foi propriamente um tratamento, simplesmente recorri a uma parte que eu não tenho na minha vida neste momento. É um processo extremamente simples, que dura um mês. Um ciclo menstrual, em que basicamente temos de fazer exames, baterias de análises sanguíneas, exames de contraste de trompas, para ver se está tudo bem. Fazem um check up para verem em que condições estamos, como contagem de óvulos, se temos bom reservatório ou não. No meu caso, que tenho 41 anos, isso é importante. Fazem também uma análise de teste de genética, para depois fazerem um match com o dador. Até por causa da questão da consanguinidade. E, portanto, é um processo extremamente simples. Durante mais ou menos 15 dias, temos de dar injeções a nós próprias na barriga para estimular os óvulos. De três em três dias fazemos uma ecografia para ver como está a parede do endométrio, se os óvulos estão a crescer como deve de ser, qual é o ovário que tem mais óvulos, qual a probabilidade de serem gémeos ou trigémeos. Quando veem que estamos mesmo no período de ovulação, tomamos outra injeção. E isso estimula a ovulação. E quando isso acontece, no dia a seguir somos inseminadas, dois dias seguidos para aumentar as probabilidades de acontecer. E passados 15 dias vamos fazer um exame de sangue, em que nos dizem no próprio dia se  estamos grávidas ou não. No meu caso, foi à primeira, portanto, tive sorte. Eu também tinha decidido que só fazia duas. Não ia ficar obcecada pela questão de ter filhos. Racionalmente pensei: ok, se não for à primeira, faço mais uma. Se não for à segunda, simplesmente desisto.

É um processo dispendioso?

Não é assim tanto. Se pensarmos numa fertilização in vitro, que está entre os 5.000 e os 9.000 €, este processo custou à volta dos 1.700, 1.800€. Já com as injeções, que somos nós que compramos, bem como todos os exames que temos de fazer, que não é a clínica que comparticipa. Quando somos um caso de sucesso, ficamos na clínica até aos dois meses e daí somos direcionados para o nosso obstetra/ginecologista. E somos acompanhadas num hospital como qualquer grávida. Somos iguais a qualquer pessoa. Não há aqui uma estimulação de nada, não foi fertilizado em laboratório. Quer dizer, é uma coisa que aconteceu comigo. Simplesmente, recorri a um dador anónimo.

O que sentiu quando percebeu que a gravidez estava a vingar com apenas uma inseminação?

Fiquei contente. Primeiro porque não ia ter de fazer tudo outra vez e não tinha de gastar esse dinheiro outra vez. Não diria que fiquei extasiada porque não estava obcecada com essa ideia. Há mulheres que dizem que nascem para ser mães. Eu não sei o que é isso, porque na realidade nunca quis ser mãe. Quis adotar crianças e depois isto foi um processo. Foi a vida que me levou a tomar esta decisão. Obviamente que fiquei contente. Partilhei com a minha mãe, ficou histérica. E depois fui vivendo o meu dia-a-dia de uma forma super tranquila, que é como tenho vivido a gravidez toda.

Quem tem assumido o papel de “pai” durante a gestação? Quem vai consigo às ecografias, etc…

Muita gente… mas a minha mãe assume mais esse papel. Quando ela não pode vai uma amiga. Quando essa amiga não pode, vai outra … No primeiro dia da inseminação esteve uma amiga. No segundo esteve outra. Depois na primeira ecografia, esteve outra. Portanto, tenho de facto, toda a minha rede bem envolvida no projeto. Mas as últimas têm sido a minha mãe, porque gosta de ver o bebé no ecrã. Ela gosta de ver!

Já está na fase final da gravidez, aliás, quando esta entrevista for publicada, muito provavelmente o Luca já terá nascido… Como tem corrido?

Super bem! Não me posso queixar de nada. Não tive um enjoo. Não tive nada. Tudo o que as grávidas se queixam, eu não tive absolutamente nada. Só posso desejar que as gravidezes das outras sejam iguais à minha. Porque esqueço-me de que estou grávida e já estou grávida de nove meses e meio.

Quer ter parto natural ou cesariana?

Eu queria ter um parto natural. O meu médico também me aconselhou a ter um parto natural. Mas também não estou nada preocupada com isso. Porque à última hora é o bebé que decide. E pode acontecer uma complicação qualquer, não haver dilatação, ou o bebé não descer, sei lá, acho que não vale a pena estar a mentalizar-me de uma coisa e depois os planos mudam e eu fico nervosa. Gostava de ter um parto normal, com 50 epidurais claro (risos). Mas que seja o que tiver de ser.

Como se sente por ter agitado mentalidades e servido de inspiração a tantas mulheres?

Isso é giro, porque para mim isto nunca foi um tema. Em Portugal, a inseminação artificial já se pode fazer há três anos. Houve mulheres que fizeram até antes disso. Foram a Espanha. Elas, na realidade, é que abriram caminho para que isto hoje seja possível. Mas quando partilhei no meu Instagram a minha história, fi-lo no sentido, não de inspirar outras mulheres, porque eu juro que não achei que isto fosse um tema, mas por ser muito transparente em relação à minha vida. Não quero que ninguém pense que sou mãe solteira. Porque o ser mãe solteira é um estado civil, e normalmente está conectado de forma negativa. És mãe solteira porque alguém te abandonou, não é?  Ou o pai da criança não quer saber, ou foi uma noite, ou causa problemas e depois aquilo não dá… e ficas com a criança nos braços… Portanto, eu quis de facto dizer, não, eu não fui abandonada por ninguém, eu tomei esta decisão sozinha, justamente para as pessoas não dizerem assim: mas a Inês não tem namorado há tantos anos, deve ter sido de um tipo qualquer. Publiquei então isso no Instagram, e aproveitei um Blog que tenho e que praticamente não serve para nada, mas escrever a história toda. Percebi que isso era um tema, porque comecei a receber montes de mensagens de mulheres, histórias de vidas de mulheres, mensagens de elogios em como eu era uma mulher corajosa e de que eu era isto e era aquilo. E percebi de facto que a minha história, que é igual à de milhares de mulheres no Mundo inteiro (e se calhar de muitas em Portugal), inspirava essas mulheres. Foi muito gratificante sentir que a minha história era importante para outras pessoas. Também  tive pessoas que são contra, também tive esse tipo de manifestações. Mas fiquei mesmo… senti-me orgulhosa. Uma coisa tão pequena para mim, significa tanto para outras mulheres. Não acho que isto seja um ato corajoso sequer, vejo isto de outra maneira. Mas é gratificante sentir isso do outro lado.

Houve como referiu reações negativas, acusando-a de estar a ser egoísta por não ter optado pela adoção ou estar a dar à luz um filho sem pai. O que diz sobre isto?

Sim, tive poucas, mas tive. 99% das pessoas deram-me os parabéns. Mas houve uns três comentários de quem acha que eu não tenho o direito de privá-lo de ter um pai. E, portanto, que era um ato egoísta da minha parte, que não estava a pensar no futuro da criança. Respeito a opinião dos outros, mas achei interessante haver pessoas que em pleno século XXI, com a emancipação da mulher e o seu empoderamento, ainda pensam desta maneira. Uma das leitoras que me criticou tem uma família aparentemente feliz, com quatro filhos e, portanto, esta minha ideia de ser mãe sozinha não encaixa no módulo de família dela. Mas respeito isso, e não me incomoda minimamente. E haverá outras opiniões e movimentos Próvida e Opus Dei e não sei mais o quê, que estarão completamente contra isto. Mas pronto, paciência!

Já passou por alguma situação desconfortável por perceberem que está grávida sem companheiro?

Não, de todo. Até pelo contrário. A maior parte das mulheres dizem: – “… se eu soubesse eu tinha feito o mesmo.” Quando é partilhado que vou ser mãe independente, as pessoas acham isso maravilhoso, porque se identificam em algum momento da vida que quiseram fazer isso, mas que não tiveram coragem ou optaram por dar prioridade a outras coisas na vida.

Pensa em ter mais filhos pelo mesmo método ou outro?

Se arranjar um companheiro que me sustente, sim (risos). Sozinha, não. (risos)

Que princípios essenciais vai querer passar ao Luca?

Valores! Respeito, lealdade, ser uma pessoa correta, honesta. E ser sobretudo verdadeiro com os outros. Ou seja, os valores do ser humano, que é aquilo que eu vejo nas outras pessoas e que me inspira. Espero que o Luca seja esse tipo de homem no futuro. E que seja independente, que não vai ser educado para ter uma sopeira em casa, de certeza absoluta. Vai ser educado para ser independente, mas sempre a respeitar os outros e a vê-los de forma igual.

Acredita que vá encontrar a sua alma gémea, a sua tampa para a frigideira, como costuma dizer?

(Risos)… Não, não acredito! Convenci-me de que essa pessoa simplesmente não existe para mim. Pronto! E não quer dizer que não aconteça. Não quer dizer que daqui a uns tempos eu não arranje uma família que adote esta família. Ou que não conheça alguém que queira fazer parte desta família. Mas nos meus horizontes, não estou à espera que essa pessoa apareça. Continuo a achar que sou uma frigideira e, portanto, frigideiras não têm tampa. E estou muito bem assim. Não me sinto sozinha. Não planeei o Luca a achar que um dia eu ia ficar sozinha. Planeei este filho porque de facto tenho muito amor para dar, e se não posso dar a um companheiro, posso dá-lo a um filho de uma forma completamente incondicional e para sempre. E sem ter de ficar à espera de alguma coisa em troca. Portanto, é uma relação entre duas pessoas, entre mãe e filho, que vai acontecer, e que a probabilidade de correr mal é pequena. Portanto, eu vivo bem com isso! 

Agradecimentos: liveandphotograph e GoParty