Na Adolescência, Mudança Radical

0
264

São avassaladoras as mudanças que se operam na adolescência, tempo de transformação radical a exigir ajustes da parte dos adolescentes e dos pais para que possam sobreviver a esse furação que agita uns e outros. Se bem vivida, partilhada e compreendida, a adolescência pode ser um tempo fecundo para os pais e para os filhos.

 

As gigantescas transformações físicas, psicológicas e sociais, próprias da adolescência, fazem desta fase da vida um período difícil para os pais, que não sabem como lidar com tanto ímpeto e exigência, mas também para os filhos, invadidos por uma onda de mudança que não controlam. Por isso, o cenário familiar, habitual e rotineiro que mantinha o mundo familiar nos eixos, muda por completo com esse súbito explodir. Por mais avisados e prevenidos que estejamos, nós, pais, somos sempre apanhados de surpresa. Mas temos de viver e de sobreviver à inquietação, aos medos e às dúvidas que nos assaltam nesta fase, entre a necessidade de os deixar «partir» e a preocupação de saber os riscos e desafios que irão viver no mundo imenso e complexo que os espera lá fora. Mudanças e transformações deste tipo não se vivem de coração leve. Senão vejamos. Onde havia um menino ou menina bem comportado, que acatava a ordem estabelecida sem grandes perguntas e que nos pedia licença para ir comprar um chupa-chupa ao virar da esquina, passa a existir um adolescente que nos põe em causa sem cerimónias, que exige sair à noite até tarde, que desobedece francamente ou obedece sempre a contragosto às sugestões ou ordens que lhes são dadas. Muitas vezes insatisfeito e mal-humorado, o adolescente fecha-nos a porta do quarto na cara com a maior das naturalidades, recusa dar-nos informações sobre a sua vida «privada», mas exige, sem cerimónias, o nosso tempo e os nossos cuidados quando lhe convém. Enquanto refletimos sobre a «perda» dos nossos velhos direitos e a desigualdade injusta da situação, ele arrasta-se na desarrumação caótica sem qualquer desconforto, mas sem nunca perder o telemóvel de vista, deita-se tarde, alheia-se tempos sem fim em frente do computador, observa-se minuciosamente ao espelho, obcecado com os cabelos, as roupas, os sapatos e as borbulhas. De repente, deixámos de contar, verdadeiramente, na sua vida. Olha através de nós, como se fossemos transparentes, e lança-se na vida, à conquista do mundo, sem sequer olhar para trás, imaginamos nós.

Mudança de Ordem. O que nos custa nesta viragem sem retorno, é aceitar a «mudança da ordem prévia», diz Claude Halmos, reputada psicanalista francesa. O abalar dessa mesma ordem, causa-nos sempre inquietação. Já assim foi quando o adolescente, que ainda era criança, começou a dar os seus primeiros passos. Tínhamos medo que caísse e que se magoasse, mas ele, teimosamente, recusava o nosso apoio porque precisava de experimentar, sozinho, os perigos de um mundo novo. «Nenhum pai ou mãe pode viver sem apreensão estes momentos em que a criança, para avançar, tem necessidade de escapar ao seu controlo e de recusar a sua proteção», diz Claude Halmos. Não podemos evitar a tentação de conter essa liberdade nascente e isso inquieta-nos, perturba-nos, mexe connosco. Anos mais tarde, na adolescência, perante a afirmação da sua vontade, a angústia reaparece. Desta vez, a mudança «faz mais barulho», diz Halmos. E de novo, aí estamos nós, divididos entre a autorização necessária para correr novos riscos e a tentação de evitar perigos maiores. A diferença é que a resistência encontrada é agora muito maior e os conflitos sucedem-se, uns atrás dos outros. A crise alastra a todas as áreas da sua vida e as batalhas são diárias: pela forma como se alimentam, pelos insucessos escolares, pelas saídas, noitadas e outros hábitos menos saudáveis. Mas o que importa, dizem os especialistas, é procurar esclarecer dúvidas.

Importância dos limites. O espírito contestatário do adolescente não nos deveria preocupar, mas pelo contrário, assegurar-nos de que tudo vai bem. Nesta fase, são saudáveis e necessários. Revelam que o adolescente se sente à vontade para nos pôr em causa e revelar-se tal como é, sem medo de mostrar a sua vontade, os seus desejos, preferências, personalidade emergente. Seria problemático do ponto de vista do seu equilíbrio psicológico, se não desse sinais de afirmação e firmeza em relação à sua «diferença» e aceitasse os desejos e as sugestões dos pais sem fazer «ondas». O nosso papel é claro, consiste em amar e apoiar os nossos filhos, mas também em colocar-lhes limites. Posto isto, os conflitos não são de evitar, muito pelo contrário. São expressão da sua saúde mental, da construção de uma nova identidade, à força de rebeldia e reivindicações. Aos pais cabe fazer-lhes frente quando necessário, afirmando também, dada a situação, os seus próprios direitos, assumindo exigências e normas a cumprir. Claro que não é agradável ter a imagem de pai ou mãe maçadores, que limitam, restringem e regulam o comportamento dos filhos, mas é nesta «dialética», por vezes esgotante, entre a defesa declarada dos nossos limites e das suas exigências, que ele se estrutura.

Fazer frente aos conflitos é necessário, justamente porque o adolescente, como afirma Claude Halmos, «constrói-se ‘contra’ a autoridade dos pais nos dois sentidos da palavra: lutando contra ela, mas ao mesmo tempo apoiando-se nela». Largamente apoiada por vários especialistas da adolescência, a ideia de que o adolescente precisa, mais do que nunca, de um ambiente forte e estável para se apoiar, quando se sente confuso e dividido, é fundamental. Essa plataforma, é a autoridade dos pais, mesmo que ele a conteste automaticamente. Entrar neste desafio, não é um jogo, diz a psicanalista, é uma necessidade. A autoridade paternal, que não significa autoritarismo, deve existir e resistir, porque ninguém se pode apoiar no vazio.

 

TESTEMUNHOS NA PRIMEIRA PESSOA

Do que eu não gosto nos meus pais: Não gosto que a minha mãe seja «cusca», que tente tirar-me informação sem que eu dê por isso, que tente entrar à força na minha privacidade, em assuntos que são só meus. Por exemplo, «então ontem saíram até que horas? E aquela tua amiga, a Maria João, estava lá? E beberam?». Tudo para ver se me apanha. Não gosto desta maneira de tentar saber «coisas», como se não fosse nada com ela, como se não se ralasse, quando na verdade, ela quer saber tudo. Prefiro o tipo de pais que perguntam claramente: «Onde foste? Quantas cervejas bebeste?». Podem ser autoritários, mas não fazem jogos. O meu pai irrita-me porque é um maçador. Está sempre a fazer problemas de coisas que não têm interesse nenhum, como por exemplo, «arruma aquela meia que está lá caída», ou «põe o leite no frigorífico», coisas sem importância, só para me irritar.

Mas claro que há pais piores dos que os meus. Porquê? Porque não se ralam nada com os filhos, nem sequer estão lá. Não sei o que seria viver como certos amigos meus, que não têm o pai em casa, ou porque se divorciaram e casaram outra vez e nunca mais se ralaram com os filhos. O meu pai é um chato, mas pelo menos está sempre aqui, está presente.

Zé Maria, 17 anos

Tenho mais liberdade. Tenho liberdade para estar com os meus amigos, para sair de casa, mesmo à noite, aos fins-de-semana. Mas o que mais irrita nos meus pais é serem chatos, porque me mandam mensagens a toda a hora, quando estou fora, para saberem onde estou e com quem. Detesto que me controlem. As zangas têm a ver sobretudo com o facto de me obrigarem a arrumar o quarto e a estudar, mas dou-lhes razão porque sei que não estudo o suficiente. O maior defeito da minha mãe é ficar furiosa. Nesses momentos fico irritado. O que menos gosto do meu pai é ele andar atrás de mim, a embirrar sem razão nenhuma. Sinto que tenho mais sorte que os meus amigos, porque tenho mais liberdade que a maior parte. Em relação ao futuro não tenho preocupações, sei que me vou safar. Apesar de dormir no mesmo quarto que o meu irmão, sinto que tenho o meu espaço. Não me falta nada, tenho tudo o que quero, acho que tenho sorte. Não gostava de ter uma vida diferente. Mas quero sair de casa aos dezoito anos e arranjar uma casa só para mim para fazer o que quiser. Como? Com o dinheiro dos pais claro, porque sozinho não consigo. Queria ter a casa só para mim para poder levar amigos para lá e ficar na boa, sem ter os pais em cima. No geral, considero-me feliz, tenho muitos amigos, o que inclui amigas. O que mais gosto de fazer é dormir, jogar futebol, ir a festas. História é o que mais gosto de estudar.

Frederico, 14 anos

Sinto a falta de outras conversas. Tinha cerca de 13, 14 anos quando comecei a sentir

necessidade de independência, mas a pressa foi tanta que acabou por sair tudo trocado. Porquê? Queria fazer muitas coisas, queria mostrar que era capaz de ser independente, mas acabei por fazer tudo mal. Faltava às aulas, andava com companhias que não eram as melhores, amigos que também não estudavam grande coisa, só queríamos estar todos juntos. Os meus pais aperceberam-se e não gostaram. Passaram a controlar as minhas idas às aulas, aliás passaram a controlar todos os meus passos. Às vezes, mentia-lhes e eles passaram a estar sempre «em cima», falavam com os professores, tinham reuniões com eles. Hoje, isso passou, mas em parte. Consigo ter espaço para fazer o que quero, quando tenho boas notas. Os meus pais ao princípio deram-me alguma liberdade, mas quando viram que os resultados não melhoravam, voltaram a retirar-me. Tenho vontade de vir a ter vida própria, mas não sei quando isso vai acontecer. Tudo depende do resultado dos estudos. Mas agora sinto-me mais motivada, tenho mais vontade de batalhar e acabar o 12º ano. Talvez daqui a uns anos possa vir a ter a independência que desejo. A qualidade da relação que tenho com os meus pais varia muito. Umas vezes é boa, outras não tanto. Claro que tenho esperança no futuro. Quando tiver filhos, terei o cuidado de conversar com eles, antes que as coisas aconteçam, para os prevenir. Às vezes, não há conversa entre mim e os meus pais, porque eles acham que não vale a pena tentarem que eu mude. Sinto a falta de ter outras conversas que não sejam só sobre estudos, às vezes gostaria de falar de outras coisas de que eles não falam, de lhes contar coisas do meu dia a dia. Mas eles não entendem. Quando lhes conto coisas da minha vida, usam essa informação contra mim quando há discussões, e isso não é agradável.

Mafalda, 19 anos

A adolescência é uma fase de descobertas e deslumbramento.

A minha entrada na adolescência aconteceu quando eu tinha 13 anos e entrei para o ensino público, para a Escola Secundária no Restelo, vinda de um colégio de freiras. Conheci pessoas mais velhas, fiz novas amizades, nomeadamente masculinas, e essa foi uma primeira fase de mudança. Sentia-me um bocado «leader» da turma porque portava-me mal e as pessoas achavam-me graça. Comecei a ter más notas. Nessa altura o meu pai começou a repreender-me e a haver conflitos entre ele e a minha mãe por minha causa. No entanto, ainda vivia uma fase meio ingénua. A grande mudança foi a partir dos 15 anos, em que comecei a sair à noite mais «à séria», com as minhas amigas. Na altura tive um namorado mais velho do que eu, que era muito popular, e que eu, na altura achava o máximo. Experimentei fumar charros só para me afirmar, embora não tivesse prazer nenhum nisso. Repeti o décimo ano. Um pouco mais tarde, ainda nos meus quinze anos, tive um grande problema com o meu pai, que não conseguia lidar com estas situações e reagiu violentamente. Os meus pais separaram-se por causa disso. Na altura, tive acompanhamento psicológico e foi muito importante, cresci muito com isso. A partir dos 16 comecei uma relação mais séria, com um rapaz mais velho, e a minha fase mais «parva» de adolescente acabou por passar. Tornei-me mais responsável, sem tanta necessidade de me afirmar, comecei a crescer e a interessar-me pela escola.

A adolescência é uma fase circunscrita, que acaba por passar, embora haja quem fique eternamente adolescente e irresponsável. É um tempo de deslumbramento, de descobertas, em que tudo é um pouco confuso. Passa-se de criança e menina, para jovem, e essa mudança é gigantesca. Mas deve ser vivida na altura certa. Aqueles que não a vivem no momento adequado, mais tarde, aos 24, 25 anos, têm atitudes de criança, parecem que retrocedem no tempo. Já deviam ter uma personalidade minimamente formada, mas não a têm, e, portanto, é tudo mais perigoso no que diz respeito a drogas, por exemplo.

Ficam mais facilmente descompensados.

Francisca, 23 anos

POR: Ana Vieira de Castro_ Jornalista