MÚSICA, MATERNIDADE E AMOR

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Ana Gomes, 32 anos, cantora e compositora, mãe de Emanuel, de 20 meses. Licenciada em Educação e com um Mestrado em Terapia através da música, integrou a banda Fado in Bossa com o maestro Uriel Varallo. Em 2016 lançou o seu primeiro álbum a solo, Balanço, produzido pelo pianista de jazz André Sarbib e o guitarrista Cláudio César Ribeiro, com canções de smooth jazz e 10 temas de Tozé Brito, com quem canta um dueto. Acaba de lançar o seu primeiro single, «O meu Chiquinho», composto por si, com piano, guitarra e viola e que «fala essencialmente de amor».

Por: Ana Vieira de Castro

Começou com o fado e está também no jazz. É uma junção do fado com o jazz, uma mistura fantástica, o smooth jazz.

Tive um percurso um bocadinho particular porque acabei por ir «beber» um pouco a cada um de várias culturas musicais. Quando era jovem, e frequentava a escola primária, comecei a participar em festivais de música infantil. Mas logo que possível estudei canto lírico em Braga. Ao mesmo tempo, conheci um produtor de música brasileiro que na altura estava a produzir álbuns de bossa nova. Fui trabalhar com ele, deu-me aulas de bossa nova e canto, e foi aí que comecei a estudar e a ler sobre esse estilo de música, a fazer novas experiências vocais, e também a compreender tudo o que aquilo era. Até aí não conhecia a bossa nova nem a sua história, que é importante, e fiquei fascinada. Comecei a trabalhar nesse sentido.

Entretanto, aconteceu o fado.

A minha mãe tinha o gosto particular de que eu começasse a cantar fado. O fado-canção era o que mais me atraía, na minha infância: a Dulce Pontes, os Madre de Deus, de que eu gostava muito. Na época, recordo-me de ter concorrido a uma grande noite do fado, e de ter ganho o terceiro lugar, teria para aí 11 ou 12 anos, mais ou menos. Pude assim «beber» mais um bocadinho do fado tradicional, só que não era exatamente a minha praia. No fim de tudo disto, acabei por ter uma formação ao longo de alguns anos que considero essenciais, desde a escola primária e até ao final da minha adolescência e início da minha juventude. Dediquei-me a uma panóplia muito grande de géneros musicais que fui absorvendo e trabalhando de várias formas, em concertos e em palco.

Isso foi bom. De alguma forma, foi a sua mãe que a incentivou.

Sim, de alguma forma foi, era um gosto particular, ela gostava muito de música. Posso dizer que a vertente musical na minha família veio muito do lado materno da minha família. O meu avô era muito dotado musicalmente, nunca foi músico profissional, mas cantava, tocava piano, cavaquinho, guitarra e acordeão sem nunca ter aprendido a tocar um instrumento musical.

 Falando de mães e dos seus gostos, você tem um filho…

Sim, o Emanuel, que tem, neste momento, 20 meses. É muito pequenino, ainda é bebé.

É bom, não é?

Pois é, é maravilhoso ser mãe.

Com tudo o que nos traz, e que nem conseguimos nomear.

Pois não, não consigo nomear. É um amor muito grande, absoluto, com o que isso nos traz, as revelações que são constantes, e todas as mudanças, dia após dia. Está numa fase em que dá muito trabalho, corre a casa toda, o que é perigoso e muito cansativo, mas também nos dá muita coisa, é uma constante, dia após dia. Tudo coisas novas e também esta, é uma fase de muita curiosidade da parte dele.

Neste momento, consegue estar muito com ele?

Neste momento estou a cem por cento na música, é a minha vida profissional. O Emanuel está no colégio, foi uma opção nossa, já esteve no berçário, e agora, que tem quase dois anos, está numa fase diferente. E neste momento, percebo como foi fundamental para ele este incentivo à socialização. Consigo perceber que ele, neste momento, tem uma vida social. Já consegue nomear alguns dos colegas. É muito giro. Por exemplo, se na escola algum colega caiu, ele já consegue contar-nos isso, em casa. Agora tenho a certeza de que tomamos a melhor opção. Apesar de que o primeiro ano foi o ano das doenças, das idas ao hospital. Mas este inverno está muito melhor, em comparação com ano o ano passado.

Vai busca-lo à escola?

Normalmente sou eu que o vou buscar, e nunca passo das 5 ou das 6 da tarde no máximo, porque acho que há um tempo para tudo. Além disso, é ótimo aproveitar o fim do dia com ele. Agora já conseguimos aproveitar melhor o tempo que passamos com ele, nos fins de tarde, vamos ao parque, ou visitar os avós…

Voltando um pouco à música, quando a associamos à maternidade, pensamos logo em música de embalar.

Quando ele era muito pequenino eu cantava-lhe algumas músicas de embalar, mas agora perdi este hábito. Talvez porque a música está sempre presente, é diária.

Está sempre presente?

De todas as formas, a cantar, a ouvir…. Eu e o meu marido estamos sempre a ouvir música em casa, seja infantil ou não, e habituámos o Emanuel a ouvir outro tipo de música, concertos do Rod Stewart, por exemplo, e é muito bom. E eu sinto-me muito orgulhosa porque ele já percebeu que nós pomos toda a música que quisermos no Youtube, e quando ponho o meu vídeo, ele diz «mamã»! E eu fico muito orgulhosa.

Agora já pode ouvir a mãe a cantar.

Já percebe. Os bebés, hoje, sabem tudo, tudo. Acho que no caso do Emanuel, eu diria que o facto de ele falar muito cedo… ele fala muito bem, bastante, praticamente tudo, e aquilo que lhe ensinamos, regista e não se esquece.

Até porque vocês falam muito com ele.

Falamos muito com ele, falamos corretamente, e ele diz praticamente tudo. Quando não consegue dizer uma palavra, nós ensinamos-lhe uma ou duas vezes e ele aprende tudo. É um menino que fala muito bem.

Ele vai gostar muito de música.

Acho que ele vai gostar de música. Aliás, já gosta. Tenho uma sala que para os ensaios porque trabalho muito em casa, e claro que ele gosta muito de ir para lá, e vai muitas vezes. Ensino-o a manusear os instrumentos da melhor forma, o que é difícil às vezes, porque ele gosta também de os atirar para o chão. Mas adora ir para lá, fiz-lhe um vídeo em que ele está a tocar piano, e aparece eufórico. Acabo por tentar passar tudo isto ao Emanuel. Mas ele pode fazer o que quiser, pode nunca vir a estar no mundo da música, mas tenho a certeza de que a contribuição da música para as crianças e para o mundo é enorme.

Estimulá-los, deixá-los mexer nas coisas é bom, se os ensinarmos eles desenvolvem-se, aprendem tudo.

É isso mesmo, cabe-nos permitir e facilitar essas experiências que de resto são tão simples e tão boas. Faz um bocado de barulho, mas para ele isso é o início de uma linguagem.

Ouvir música de pequeninos é muito bom. Ouvia música quando era criança?

Sim, os meus pais punham música para eu ouvir. Lembro-me de crescer a ouvir o Tó Zé Brito, por exemplo, e agora tive o prazer de trabalhar com ele no meu último trabalho, o Balanço, fizemos também um dueto nesse álbum. Também colaborei com ele no disco em que celebra 50 anos de carreira, o que foi um privilégio.

Gosta de jazz clássico?

Gosto muito de jazz, é delicioso. E também gosto muito do fado-canção, da bossa nova, das mornas, acho que há uma base entre todas que acaba por ser parecida. A música cresceu de forma latina, não é? Foi desenvolvida pelos latinos. Africa e Brasil, Portugal e América do Sul têm uma expressão parecida, uma expressão máxima.

Como define a forma como nós, portugueses, expressamos a nossa musicalidade?

Não extravasamos da mesma forma a musicalidade que está em nós. O facto de estarmos na Europa…. Se calhar, nós portugueses não vamos para a rua, antes vemos e ouvimos a música «da janela». Acho que todos nós seres humanos temos dentro uma componente musical, mas depois a sociedade condiciona-nos, faz com que fiquemos contraídos. Por exemplo, lembro-me de estarmos num concerto em Copenhaga e a minha reflexão era: será que as pessoas estarão a gostar ou não? Isto, porque não havia reação. Mas quando me apercebi, no fim da primeira música, eles manifestaram-se fortemente.

Planos futuros, atividades presentes:

Estou a começar a trabalhar, pela primeira vez, como editora. Até tinha algumas coisas na gaveta, alguns temas a metade, algumas letras e algumas composições. Com o nascimento do meu filho, tive vontade de compor para o publico, e é isso que vai surgir agora, na próxima terça-feira. Não é um disco, é apenas um primeiro single, composto por mim, com piano, guitarra e viola, é um bocadinho mais complexo, tem muita percussão e guitarra portuguesa. É um tema primaveril e que fala essencialmente de amor, mas é um bocado diferente. O single chama-se «Meu Chiquinho».