Quando o Mundo Perdeu a Cor

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O meu nome é David. Tenho 9 anos. O meu irmão tem 6. Chama-se Diogo. E temos uma história para te contar.

Há algum tempo que ando para decidir se te conto tudo ou não.

Não vai ser fácil para ti acreditares. Nunca é fácil para os grandes acreditarem. Já reparaste nisso? Dão voltas e mais voltas à cabeça, à procura de outra resposta que não aquela que acabaram de ouvir.

À procura de outra história, uma mais fácil de perceber, mais «real», mais «adulta». Como se ser adulto fosse tudo no Mundo…

Aprendi que não é. Que não tens todas as respostas. Que os grandes não sabem tudo. E que no fundo precisam tanto de nós como nós deles. Sim, podes não acreditar na minha história, podes querer parar, dizer-me: «Chega! Isso nunca aconteceu!»

Eu gostava de te fazer a vontade. A sério. Gostava de pegar na tua mão e dizer que é tudo mentira, que foi tudo inventado. Gostava, mãe.

Mas essa não é a verdade. E eu jurei dizer-te a verdade. Estás pronta?

O dia em que tudo mudou

Acordei com uma sensação estranha. Sabes, aquela dorzinha na barriga que te diz que alguma coisa não está bem?

Esfreguei os olhos, espreguicei-me e voltei a enrolar-me. Estava frio. Só deixei o nariz de fora. Já seria de manhã?

Ouvi um barulhinho por baixo de mim. Muito levezinho. Depois uns passinhos a subirem. O mano escalava o beliche e acabou por aterrar em cima de mim.

  • Au! — queixei-me.

 

  • Desculpa — disse ele, e escondeu-se comigo debaixo da manta do Faísca.

 

  • Tive um pesadelo — segredou-me. Enrolei-me nele. Parecíamos dois croquetes.

A pouca luz que entrava pela janela não me deixava ver nada. Não vinham sons do resto da casa.

  • Tenho fome — diz-me ele, numa voz baixinha de quem não quer acordar ninguém

 

  • Ainda é muito cedo. Dorme — resmunguei.

 

  • Não consigo. Sonhei com coisas más.

Oiço o barulho da porta a abrir, muito devagarinho. Oiço outra vez passos. O som dos lençóis em baixo. Uma mão que nos procura em cima. Um riso de mãe.

  • Bom dia, pequenos. Está tudo bem? Estão escondidos?

Não te contámos do pesadelo. Não sei porquê. Contamos sempre. Mas desta vez não. Dou-te a mão, só com o nariz de fora.

  • Temos fome. Ris-te.

 

  • Vocês têm sempre fome — respondes ainda a so — Estão com sorte. A cozinha já abriu!

Esticas-te para nos fazeres cócegas e mandas-nos um beijo. Quando sais fico a pensar que o teu cabelo está mais escuro.

Acabamos por nos levantar e sair da cama, mas sem grande vontade. (…)

Olho distraído para a mesa enquanto engulo uma panqueca inteira. Pergunto-

me porque é que toda a loiça é branca. Nem o Diogo tem a caneca que usa sempre, do Faísca, nem o pai a do Homem-Aranha. Reparo que o mano está sempre a rodar a dele à procura de qualquer coisa.

  • O que foi? — pergunto-lhe.
  • Onde está o resto? — quer ele saber, com a cara quase colada à caneca.
  • O resto do quê? — consigo perguntar, com a boca cheia de panqueca.
  • Do Faísca, o que é que havia de ser?! — diz, chateado.

Olho para ele, a seguir para a caneca. Olho mais de perto. Ainda se vê qualquer coisa, mas muito pouco. O desenho está esbatido, a desaparecer. Parece-me ver o raio e um pneu, acho eu. Encolho os ombros: — Não sei.

Mas o que se passa aqui?

O meu mano dá-me a mão. E segreda-me ao ouvido:

  • Já viste os olhos da mãe? Não estão iguais. Digo que sim com a cabeça.
  • Nem o céu Nem as flores!

Volto a acenar. Sim. E fico calado. A pensar. Mas o que se passa aqui? De novo aquela dorzinha na barriga. De repente, percebo! Aperto a mão do Diogo com força:

  • Estão sem cor!

Está tudo sem cor! O cabelo da mãe! Os olhos da mãe! A roupa do papá, o céu, os pássaros! Tudo sem cor! Não vejo os amarelos, nem os vermelhos, nem mesmo o castanho das folhas secas! Algumas parecem cinza, mas tudo o resto ou é preto ou branco! Não parece dia nem noite. É como se a luz não se conseguisse decidir: fica ou vai-se embora? Olho para cima. O Sol está lá, mas mais parece uma grande bola de nada. Em dez carros que passam, só três é que ainda têm cor. E mesmo esses parecem desbotados, como se alguém ou alguma coisa tivesse estado a raspar-lhes a tinta.

Apresso o passo e puxo pela mão do Diogo. Quero juntar-me à mãe. Não estou a gostar disto. Encosto-me a ela e olho em redor. Parece que estou num grande rascunho de um desenho que espera pacientemente que o acabem de pintar.

  • Mãe, estás a ver isto? — pergunto, ansioso.
  • O quê, amor?
  • As cores — insisto.
  • Sim, estão lindas, não estão? — respondes-me. — Vai estar um belo dia, hoje. Vá, toca a despacha Vamos chegar atrasados.

«Vamos chegar atrasados.» Atrasados. Como se isso importasse agora. Como se isso fosse importante hoje. Não. Hoje o tempo não é importante, mãe. Não é com o tempo que estou preocupado, mas sim com as cores. Com as cores que eu não vejo e que tu não sentes falta.

Como é isto possível? Olho de relance para o meu irmão. Está com uma cara preocupada. Já somos dois…

(Excerto Livro: Quando o Mundo Perdeu a Cor)

        

Rute Simões           E-mail: rutepsimoes@gmail.com

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