Motivos por detrás de um divórcio

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A terapeuta Cláudia Morais refere no seu mais recente livro – “Continuar a Ser Família Depois do Divórcio” – que nem todas as pessoas conseguem explicar de forma clara e simples porque é que se divorciaram. No entanto, existem algumas causas que são comuns num caso de infidelidade ou separação. Dizemos-lhe quais.
“Mesmo quando há situações concretas, como uma relação extraconjugal, dificuldade em ultrapassar um acontecimento específico como a infertilidade, problemas de relacionamento com a sogra, dificuldades financeiras ou diminuição do desejo sexual, existem sempre pelo menos duas perspetivas”, explica Cláudia Morais, psicóloga e especialista em Terapia Familiar. “É que a realidade é sempre mais complexa do que parece e nem sempre é fácil identificar as necessidades que foram ficando por preencher. De resto, e ao contrário do que acontecia há alguns anos, já não são só os casais infelizes que se divorciam. Hoje divorciamo-nos para sermos MAIS felizes. Vivemos em busca de mais e melhor e, quando nos damos conta de que podemos ser mais felizes do que somos na relação em que estamos, arriscamos”, continua. 
Mudança de paradigma
Isto também está relacionado com a mudança de paradigma em relação aos compromissos: “Os nossos antepassados casavam e, muitas vezes, nem sequer havia amor romântico envolvido. Depois passámos a casar por amor com a convicção de que seria para a vida toda. E atualmente comprometemo-nos enquanto continuarmos a sentir-nos suficientemente vivos e entusiasmados naquela relação”, frisa a especialista, acrescentando que “vivemos num período em que somos tremendamente livres para amar, para escolher e para romper e, simultaneamente, é-nos cada vez mais difícil cumprir o sonho de viver um amor para a vida toda”.
De resto, os motivos por detrás de uma separação “são aproximadamente os mesmos dos que podem estar por detrás de uma infidelidade e estão relacionados com as necessidades que vão ficando por preencher – quer reparemos nelas, quer não”.
AS CAUSAS
Desconexão emocional
Algumas pessoas nem se apercebem de que vivem em piloto automático: acordam, trabalham, cuidam dos filhos, cumprem as suas obrigações e vão deixando a relação conjugal para segundo plano. “Não é que não queiram namorar. Querem e muitas vezes até se esforçam para criar momentos especiais. O que acontece é que esses momentos são demasiado raros para que possam ser chamados de rituais. E todas as relações precisam de rituais, aqueles momentos que são tão bons que escolhemos repeti-los vezes sem conta”, sublinha a especialista. “Tenho trabalhado cada vez mais com pessoas que se separam após vinte ou mais anos de casamento. Em muitos destes casos, a desconexão não aconteceu de um dia para o outro. Foi acontecendo de forma gradual. E, muitas vezes, os membros do casal foram aprendendo a viver assim. Mas o facto de vivermos cada vez mais tempo, o facto de estarmos cada vez mais atentos ao nosso bem-estar e àquilo que nos faz felizes e o facto de, a partir de determinada idade, estarmos mais centrados em aproveitar o que quer que a vida tenha para nos oferecer e menos preocupados com o que os outros possam pensar, faz com que haja mais pessoas a escolher divorciar-se após décadas de casamento”, continua.
Afastamento físico
“Quando observa um casal apaixonado, no que é que repara? Se prestar atenção, há quase sempre um elemento comum: aquelas duas pessoas tocam-se com frequência e mostram através dos gestos o quanto se desejam. Não há necessariamente uma conotação sexual nestas carícias, mas é difícil dissociá-las da paixão. A diminuição significativa destes gestos de afeto é um dos principais sinais de alarme, sobretudo em casais jovens. Sabemos que uma relação já teve melhores dias quando constatamos que aquelas duas pessoas raramente se tocam”, alerta Cláudia Morais, partilhando ainda que “muitas vezes, a intimidade emocional está lá e até pode haver aquilo a que eu chamo de ‘familiaridade excessiva’, isto é, os membros do casal são tão próximos que deixou de haver espaço para o mistério e para a sedução. Nestes casos, o processo de separação é particularmente doloroso”.
Aparecimento de uma terceira pessoa
“Não sendo a maioria, há evidentemente casamentos que acabam devido ao aparecimento de uma terceira pessoa. Ainda assim, é-me difícil olhar para este acontecimento como uma causa, dissociando-o do que aconteceu à própria relação. Aquilo que quero dizer é que, de uma maneira geral, a relação com a terceira pessoa vem, sobretudo, chamar a atenção para as necessidades que foram ficando por preencher na relação oficial – mesmo que a pessoa que entretanto se apaixonou por outra não se tenha queixado”, esclarece a terapeuta familiar. Quando surge alguém que olha para nós, que presta atenção àquilo que sentimos, que repara nos detalhes, que nos elogia de forma sincera, que nos incentiva a lutar pelos nossos sonhos e/ou que nos desafia, sentimo-nos especiais.
Problemas com a família alargada
Para alguns casais, as dificuldades de relacionamento com a família alargada estão na origem do distanciamento emocional que, mais tarde, acaba por dar origem ao divórcio. “Na maior parte dos casos a que tenho acedido, as dificuldades estão relacionadas com a interferência excessiva da família alargada e/ou com a dificuldade em estabelecer limites. Quase todos os pais e mães têm a expectativa de continuar a fazer parte da vida dos filhos, mesmo depois de eles saírem de casa. E não há nada de errado nisso. Mas quando a relação entre pais e filhos parece ter mais força do que o compromisso conjugal, é mais provável que haja braços-de-ferro, conflitos e distanciamento emocional”, esclarece.

Colaboração: Cláudia Morais, Psicóloga e Especialista em Terapia Familiar http://www.apsicologa.com                                                                   

POR: Aida Borges
( artigo na integra na nossa edição impressa nº 11 capa fevereiro)