A melhor herança: Pais que se amam fazem os filhos felizes

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Sweet in love couple dreaming of their future

Na lista das várias coisas boas que podemos dar aos nossos filhos é fazer com se sintam muito amados. Mas não só. A qualidade do amor que existe entre o pai e a mãe é peça fundamental na sua construção, desde que nascem. Sentir que os pais se amam, é como uma garantia contra os ventos e as marés das suas vidas.

Ana Vieira de Castro

Relações bem-sucedidas e tão harmoniosas quanto possível, proporcionam equilíbrio e bem-estar entre todos, pais e filhos. Em concreto, uma boa relação amorosa entre o casal está diretamente ligada à qualidade do amor parental, ou seja, favorece um «ambiente facilitador» para o bom desenvolvimento das crianças, tal como Winnicott defendia. As crianças sentem o amor que une os pais como um porto seguro e protetor, aonde podem sempre voltar, e a interiorização desse afeto permite-lhes crescer com raízes que os seguram a casa, à terra onde nasceram e ao mundo que irão descobrindo ao longo da vida. Assim, tudo começa com o amor para acabar no amor. Mas como se desenrola o processo? Iniciada a relação amorosa, a cadeia de acontecimentos precipita-se. Imaginemos que começa pela paixão, em que cada parceiro vive suspenso do outro, da intensidade da entrega mútua, numa relação que passa a ser foco intenso e exclusivo dos pensamentos e da vida de cada um. Depois, tudo se transforma com o correr do tempo, quando decidem viver juntos e ter filhos, e o bebé idealizado começa a tornar-se cada vez mais presente na vida do dia a dia. Na realidade, o «projeto» materno e paterno começou muitos antes, mais precisamente no encontro do próprio encontro do casal. Dizem os especialistas que cada um dos dois já trazia a representação inconsciente do bebé imaginado, consubstanciada numa ideia, imagem, vontade e sobretudo nas memórias e noutros registos inconscientes que todos trazemos no mais fundo de nós próprios. Num encontro amoroso significativo, e é intuído pelos dois um projeto de vida comum, o desejo de ter filhos está lá assim como as crianças idealizadas pelos dois, cada um à sua maneira.  

O mundo novo. Entretanto, quando a mãe fica grávida do primeiro filho, uma nova realidade acontece e transforma pai e mãe em cada dia, e que se vai fazendo cada mais palpável à medida que a gravidez avança, até ao grande dia. Desde logo, o nascimento do primeiro filho é acontecimento fundamental pelas mais variadas razões. É um acontecimento único, que abre uma porta para um outro mundo, em que cada minuto acrescenta uma sensação nova. De repente, há um bebé que precisa ser alimentado, cuidado, que chora e não dorme, e pai e mãe passam a viver suspensos dos seus desejos e necessidades. Suave a discretamente ao princípio, começa a acontecer o cansaço dos pais. O menino que dorme no berço chora, tem forme, agita-se, é preciso pegar-lhe, embalá-lo, mudar-lhe a fralda e ajeitar-lhe os cobertores. Por esta altura, a mãe é todo o universo da criança e, durante algumas semanas, o pai está em segundo plano, ainda que a sua presença seja condição básica para que a mãe possa ser «mãe». Na verdade, o papel do pai é imenso. Prende-se com a qualidade do apoio que dá á mãe em termos dos cuidados que lhe presta, atenção, apoio e ternura, o que é crucial para que ela possa dar o seu melhor ao bebé.

De dois, passa-se a três. Com o tempo a mãe começa pouco a pouco a convidar o pai a entrar nesse novo mundo de intimidade, em que os laços se vão tecendo lentamente. De dois passaram a três, e outro milagre acontece. À medida que o tempo corre, são cada vez mais ativadas, em cada um, pai e mãe, as imagens inconscientes que cada um carrega da sua própria infância, da criança que cada um tem dentro de si. Começa aquilo que se chama o efeito de «espelho». Assim, a relação que cada progenitor tem com a criança reflecte o que cada um viveu, e que em parte estava esquecido, mas começa a entrar em ação através da mobilização profunda dos seus sentimentos e afectos. Esta tarefa não se aprende, vai sendo cumprida com intuição, e pai e mãe começam a revelar-se como até aí nunca o tinham feito. Este é o tempo de todas as ambivalências. Se é verdade que nesta altura vivemos todas as formas de felicidade, tensões múltiplas começam a fazer-se sentir, e o pai e a mãe são chamados a regular uma situação que desconhecem, exigente e plena de surpresas e desafios.

Viver a vida a sério. Melhor ou pior, cada um mobiliza capacidades que não sonhava ter. Cuidar de um filho que acaba de nascer é todo um mundo novo, pleno de exigências e cansaços, que nos testam sem parar. Neste processo de aprendizagem, as pessoas revelam-se a cada dia que passa, muitas vezes no limite das forças e da resistência. Sentimos que até este momento, a vida parece ter sido suave, tranquila, uma brincadeira ao lado do que estamos a viver. Agora, já não é a brincar, é a sério. Trata-se, verdadeiramente, de dar tudo de nós, até ao limite, e é justamente no limite que nos revelamos, no melhor e no pior, intensamente. O romance a dois parece ter sido há séculos. À distância, amar parece-nos ter sido tarefa fácil e agradável, quando o romance estava no auge, a realidade parecia um sonho, a entrega fluía, e o espaço nos parecia sem limites. Mas a aventura apenas acaba de começar. Há quem diga que o amor entre um homem e uma mulher começa a ser verdadeiramente posto á prova nesta fase da vida, quando as crianças são pequenas.

Reinventar o amor. Quando recuamos na infância, o passado volta. Para alguns, não todos, claro, não há melhor e mais apaziguadora memória do que a de lembrar os nossos pais de braço dado, em passeio, dos risos cúmplices, das suas intermináveis conversas, do doce sabor da sua cumplicidade, da suavidade amorosa com que se tocavam, olhavam e falavam. Como um porto seguro, sentíamo-nos protegidos por essa sintonia que hoje nos parece eterna, um entendimento que juraríamos nunca ir acabar. Adormecemos e acordamos ao som das suas vozes tranquilas, na certeza de que navegamos num grande barco, de madeira sólida e velas enfunadas pelo vento, e que nenhuma tempestade pode afundar. Não é que as tempestades não existam, porque elas por vezes rebentam, às vezes por coisas pequenas, outras por sarilhos maiores, mas a constância do seu amor permite-nos saber que elas vão e vêm, que o barco vacila, balança, às vezes parece que se vai virar quando o vento uiva e a chuva cai, mas no mais fundo de nós próprios sabemos que a calma regressa sempre. Acorda-se no dia seguinte e no silêncio do dia que começa, a tranquilidade sente-se no ar. Quando a relação afectiva entre pai e mãe é basicamente boa, estável e segura, as crianças têm o tempo e a oportunidade de desenvolver essa convicção íntima, essa tranquilidade à prova de todas as intempéries. Tudo isto é verdade, sabemo-lo porque lemos, ouvimos e sobretudo sentimos. De resto, todos os estudos científicos comprovam que o amor e a harmonia entre o casal parental fortalece, e logo protege, os filhos ao longo da vida, ou seja,  é garantia da sua satisfação, confiança e estabilidade psíquica, com tudo o que isso comporta.