A importância de Ser criança na era do Ter!

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A importância de Ser criança na era do Ter!
A importância de Ser criança na era do Ter!

SER criança é algo cada vez mais raro e difícil nos tempos do consumo desenfreado.

Longe vão os tempos em que os brinquedos eram feitos com múltiplos objetos do dia a dia, onde o brinquedo era o produto de uma criação livre da criança e o resultado de um trabalho desenvolvido e partilhado pelos amigos da rua. 

Podemos lembrar-nos dos carrinhos de rolamentos, das espingardas de madeira, das bolas de meias e muitos outros brinquedos que desapareceram do nosso quotidiano, pois já não existe criação livre e os amigos já não estão na rua, a rua deixou de ser um local para brincar para a grande maioria das crianças.

Hoje somos invadidos por uma necessidade incompreensível de ter: ter uma consola, ter um telemóvel, ter o boneco A ou a boneca B. O ter está realmente a dominar a vida das nossas crianças, pois elas estão expostas a imensas mensagens de consumo, que as atingem vindas de todos os lados, e os pais são muitas vezes coniventes, pois vivem apressados para chegar à próxima cena das suas vidas quotidianas e muitas vezes não têm a capacidade de parar, respirar e analisar o que está realmente a acontecer.

A atual sociedade ocidental vive consumindo recursos bem acima das suas necessidades e bem acima do que o planeta pode disponibilizar. As mensagens de consumo estão por todo o lado, invadem o nosso espaço através de todas as formas de comunicação, estamos totalmente expostos aos objetivos das grandes marcas.

A par disso, os principais meios de comunicação estão a optar por mensagens totalmente incompreensíveis de medo. Estimulam o medo diariamente. Basta estar atento aos programas e em praticamente todos eles, o crime, o roubo, o escândalo e a suposta insegurança têm um direito de antena incrível. Fico perplexo por existir a crónica diária do crime…. num país que é dos mais seguros do mundo. 

Todas estas mensagens ajudam a que a rua para o brincar livre, seja apenas uma enorme miragem para a grande maioria das crianças portuguesas. Este facto faz com que o brincar livre, a descoberta, o subir às árvores, o jogar às escondidas, deixem de ser atividades exclusivas das crianças, para passarem a ser atividades para crianças orientadas por adultos, o que faz toda a diferença no desenvolvimento harmonioso, multilateral e criativo da criança.

Se as nossas crianças não podem ser crianças na plenitude da palavra, o seu tempo tem de ser ocupado e se a rua e o brincar livre não são opção, outras atividades surgem a ocupar esses tempos. Um facto preocupante é que essas novas atividades promovem a inatividade física, promovem a não utilização do corpo como “objeto” de brincadeira e conseguem manter uma criança quieta durante toda uma tarde ou uma manhã… algo não está correto nestas atividades. Uma criança não pode, não deve estar parada tantas horas seguidas.

A APDF – Associação Portuguesa de Desporto em Família tem como objetivo criar condições para que o brincar com o corpo possa ressurgir na vida das crianças, através de jogos desportivos onde os adultos também são bem-vindos.

É desta forma que o nosso princípio pedagógico “Brincar a aprender, aprender a brincar” é aplicado. Temos esperança que as famílias despertem para uma nova era, onde a utilização do corpo para preencher o tempo seja uma realidade, e que as famílias possam “Viver tempo em família em detrimento de Passar tempo em família”. 

Está provado que as famílias que passam tempo em atividades ao Ar Livre em Família apontam menos problemas de Saúde e maior Bem-Estar Familiar e que a prática de atividade física tem uma influência positiva no sucesso escolar das crianças e adolescentes. 

POR: José Pastoria _ Professor de Educação Física