A IDADE DE TODAS AS CRISES

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Crescer significa mudar, e as mudanças acarretam crises. Uma das fases mais sensíveis do desenvolvimento é justamente a adolescência. Seja compreensivo e empático com o seu filho adolescente, sem esquecer de lhe colocar os limites necessários, sem dramatizar.

Ana Vieira de Castro

1 – Situação: Quando o adolescente é conflituoso e violento com os pais.

Reação habitual dos pais: Um adolescente com crises de violência é o pior pesadelo de qualquer pai ou mãe. A situação agrava-se se a mãe vive sozinha sem ter com quem partilhar a experiência. Quando um adolescente faz recair a sua violência sobre a família, todos sofrem. Desorientados, os pais não sabem como reagir, e acabam por atuar oscilando entre a passividade e a submissão assustada, ou um contra-ataque também violento. Os pais submissos e atemorizados com as manifestações de agressividade do seu filho, cheios de culpa, medo e insegurança, sentem que perderam a batalha, não têm forças para assumir a autoridade e mostram-se enfraquecidos, o que enraivece ainda mais o adolescente que no fundo anseia por estrutura e contenção. Tudo isto, leva a um círculo vicioso de agressão, impotência e mais agressão. Outros pais, ao contrário, reagem com violência assumida, agredindo o filho quer verbal quer fisicamente, criticando-o e culpando-o sem lhe dar tréguas. São comuns os castigos radicais, sem apelo nem agravo, que levam o adolescente a revoltar-se ainda mais. Qualquer das atitudes é errada e não faz mais do que exacerbar a raiva e o descontrolo do adolescente, que precisa sobretudo de ser contido nas suas manifestações de agressividade, com firmeza, mas também com respeito e empatia.

O nosso objetivo: Conseguir controlar a fúria do adolescente de uma forma eficaz e com firmeza, levando-o a cair em si e a questionar-se sobre as razões da sua conduta, o que, como se calcula, não é tarefa fácil. Em muitos casos, quando a agressividade se torna um hábito, sem que os pais a consigam controlar, torna-se necessário pedir aconselhamento psicológico a profissionais especificamente formados nestas áreas. Desde logo, convém entender que a violência do adolescente não nasce do nada, é sempre sinal de uma perturbação profunda. Esta reação exprime a sua revolta e a convicção, real ou imaginária, de que também ele foi vítima de violência.

Nova atitude: O instrumento fundamental da mudança de atitude dos pais é a escuta atenta e não intrusiva do que o adolescente tem para nos dizer, mesmo sem palavras. Na verdade, ele anseia por ser ouvido embora não consiga exprimir verbalmente esse desejo. O hábito de conversar com os seus filhos, desde a mais tenra idade, é a melhor prevenção da violência ou, pelo menos, ajuda a encontrar um caminho para a compreensão na hora das tempestades. Quando o adolescente se zanga e começa a dar murros na parede, a gritar e a atirar objetos ao chão, convém não nos aproximarmos dele, respeitando o seu espaço e salvaguardando a nossa segurança. A nossa linguagem corporal é muito importante. Puxar uma cadeira e sentarmo-nos é uma forma de baixar o nível de tensão. Outra ideia é não olhar o adolescente nos olhos, o que o leva a sentir-se desafiado. Deixe-o acalmar-se lentamente, fechando-se no quarto. Mais tarde, quando volta a tranquilidade, fale com ele sem o criticar, mas assumindo que têm, ambos, pais e filho, um problema para resolver e que todos têm responsabilidade no assunto. A conquista da sua confiança far-se-á lenta, mas seguramente, é uma tarefa que exige um trabalho sobre ele e nós próprios, na tentativa de perceber a origem dessa violência.

Um conselho: Como acima se refere, a violência continuada do adolescente é um sintoma grave que carece, urgentemente, de apoio psicológico e psiquiátrico.

2 – Situação: saídas noturnas, álcool e cigarros.

Reação habitual dos pais: As primeiras saídas noturnas são o sonho de qualquer adolescente. Hoje começam a sair cada vez mais cedo, aos doze, treze anos e chegam a casa já a noite vai adiantada, quando os pais dormem. No dia a seguir, a roupa caída um pouco por todo o lado tem o cheiro entranhado de cigarros, e no quarto abafado paira um certo odor a álcool. As mães são as primeiras a inquietarem-se porque se apercebem mais cedo dos sinais. Os pais mais preocupados temem o pior e decidem tomar medidas drásticas. Outros, têm uma reação completamente oposta. Desvalorizam o acontecido, alegando que «quando eram adolescentes também fizeram asneiras». Nenhuma destas atitudes é aconselhável, sobretudo a última. Convém, sobretudo, perceber que o excesso de consumos é um sintoma sério a que se deve prestar a maior atenção.

O nosso objetivo: Fazer noitadas aos 12 anos, é muito cedo, e é importante colocar limites para que ele perceba que os pais se preocupam com a sua segurança e saúde. Falar sobre o consumo de cigarros e álcool é fundamental, desde que a conversa seja franca e afetuosa. O objetivo é levá-los a compreender os riscos que correm, sem dramatismos, mas com verdade e determinação.

Nova atitude: Todos os adolescentes são confrontados com o consumo de tabaco e álcool, e mais cedo ou mais tarde, a grande maioria experimenta. Não há que dramatizar, garantem especialistas como o pedopsiquiatra francês Daniel Bailly. O especialista refere estudos sobre os adolescentes que fumam e bebem ocasionalmente, concluindo que não demonstram nenhuma perturbação mental, ao contrário dos que são completamente abstinentes ou consumidores abusivos. Nesta dinâmica, os pais devem falar abertamente com os filhos e mostrarem-se, acima de tudo, congruentes. Quando os pais são, eles próprios, consumidores, perdem a autoridade para fazer discursos moralizadores. Por outro lado, quando há estrutura e afeto dentro da família, o adolescente está, à partida, mais protegido do que noutra situação. O risco de vulnerabilidade desce claramente. Ter um bom grupo de amigos, é outro fator positivo.

Um conselho: Esteja atento aos sinais. Use a escuta ativa, ou seja, ouça-o com atenção, faça-o pensar sobre a realidade. Se ele estiver em risco, procure a ajuda de um terapeuta para ele e para o casal.

3 – Situação: Adolescente, eterno desarrumado.

Reação habitual dos pais: «Um quarto que seja meu», exige o adolescente, que não gosta que lhe «andem a mexer nas coisas». Tranca-se horas a fio no quarto e a desarrumação crónica não lhe faz nenhuma confusão. À noite acomoda-se numa cama que não é feita há mais de dez dias, e adormece feliz apesar das pilhas de roupa em cima das cadeiras e das mesas, dos ténis sujos, das camisolas da ginástica que cheiram a mofo, dos livros e dos cadernos atirados para um canto. Os pais aceitam mal viver paredes meias com pó, lixo, roupa suja e camas por fazer. A guerra instala-se e pode tornar-se crónica.

O nosso objetivo: Levá-lo a tomar consciência de que o desarrumo exterior é muitas vezes um espelho da confusão interior. Sensibilizá-lo para a necessidade de ordem, limpeza e disciplina como atitudes fundamentais e organizadoras da nossa vida. Evitar os grandes discursos porque os adolescentes têm um tempo limitado de interesse quando se trata de assuntos que abominam.

Nova atitude: A atitude dos pais sobre este assunto deve ser discreta, não muito intrusiva, nada de entrar pelo quarto adentro e começar a fazer discursos sobre a limpeza, a vida doméstica e outras coisas. Todos os adolescentes são desarrumados. Faz parte do seu desenvolvimento. Contudo, é preciso colocar-lhe limites e orientá-los. Ele vai ficar furioso quando o obrigar a mudar a roupa da cama e a aspirar o quarto, mas tente não o levar a sério. Não arrume nada por ele, resista à tentação. Tente não se enervar nem insistir demasiado no mesmo assunto. Importante é levá-lo a ganhar hábitos de organização, mesmo que o faça muito lentamente. Nunca desista.

Um conselho: Desconfie do perfecionismo demasiado do seu filho adolescente, o que pode revelar um traço obsessivo. Ao contrário, se ele persistir na desarrumação, não se preocupe. Um dia vai passar.