Como ensinar no início de tudo

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“Nunca nos recuperamos totalmente de ter nascido” Andrew Still

O momento do parto é sempre um momento de mudança para todos, principalmente para o bebé: de um meio calmo, quente, aquático, o bebé é forçado a contactar com um meio aéreo, cheio de sons, luzes, fios e mãos.

Um bebé que nasce antes do tempo, é sujeito a todo este trauma – e inclusivamente mais, dada a necessidade de cuidados hospitalares especializados – quando os seus sistemas ainda não estão prontos para essas mudanças.

O seu sistema nervoso central iniciou a sua etapa principal de desenvolvimento entre o 5º e o 6º mês de gestação, no entanto é um processo cuja intensidade só abranda após o primeiro ano de vida. Quer dizer que um bebé prematuro se encontra em pleno desenvolvimento do seu sistema nervoso quando este é alterado e que lhe são exigidas capacidades que ele ainda não tem totalmente desenvolvidas.

Felizmente, o cérebro do ser-humano é extraordinário e faz-se dotar da capacidade de ser plástico. Isto é, os cerca de 100.000 milhões de neurónios com que o bebé nasce têm a capacidade de criar novas ligações entre si e podem fazê-lo a uma velocidade estonteante de 30.000 conexões por segundo.

Esta plasticidade cerebral depende da experiência, ou seja, o cérebro só consegue criar novos caminhos entre os seus neurónios – e, por isso, aprender – se experimentar. Ao sabermos disto, estamos perante uma boa e uma má notícia: o cérebro do bebé prematuro tem uma capacidade imensa de aprender através das experiências que vive desde o momento em que nasce o que lhe permite adquirir as competências motoras de uma criança de termo. Por outro lado, toda e qualquer experiência vai influenciar o seu cérebro daí que tenhamos de nos assegurar de que lhe damos as experiências certas.

Mas o que é uma experiência certa? Como saber que estímulos dar e quando?

Não é simples responder a estas questões por, na verdade, ser necessário um conhecimento profundo das etapas de desenvolvimento psicomotor da criança – daí a importância de ter uma equipa especializada a acompanhar este processo.

No entanto, numa tentativa de simplificar, diremos que é tão importante a forma como o bebé se mexe como a forma como está parado.

Começando pela imobilidade, esta é-lhe imposta pelo facto de já não estar em meio aquático, onde podia mover-se com menos esforço e simultaneamente com uma contenção que lhe conferia proteção. No ambiente extra-uterino o posicionamento do bebé deve privilegiar então a contenção por se saber que dar limites o ajuda a organizar-se e a sentir-se seguro. Posições, então, em que o bebé está em extensão (costas arqueadas para trás) devem ser evitadas e favorecidas sim as posições com flexão.

Ainda acerca da imobilidade, não podemos esquecer que o bebé está apoiado contra uma superfície e que é essencial que essa pressão vá sendo alternada através de mudanças de posição frequentes a fim de promover o normal funcionamento dos músculos e articulações.

Os diferentes posicionamentos do bebé oferecem-lhe sensações diferentes e permitem trabalhar competências diferentes, ainda que partilhem dos mesmos princípios, sendo eles o conforto, a mobilidade, o alinhamento e simetria, a segurança e a utilização de equipamento auxiliar para conferir a flexão e contenção necessárias.

Como exemplo, o decúbito ventral (barriga para baixo) confere uma sensação táctil de peso nas mãos, favorece o controlo da cabeça e ajuda a diminuir sintomas como as cólicas ou o stress – ainda assim é uma posição em que o bebé não deve ser deixado sozinho pelos riscos que também acarreta.

Falemos agora do outro lado da moeda, a mobilidade. Tal como com o posicionamento, não interessa qualquer movimento. É através do toque que comunicamos com o bebé (não é por acaso que é o sentido a desenvolver-se primeiro, por volta da 7ª semana de gestação) e há que escolher as “palavras” certas. O movimento diz ao cérebro que para ter aquela sensação é preciso mexer aquela parte do corpo, ajudando o bebé a ganhar controlo e consciência das suas partes do corpo e das consequências dos seus movimentos. Assim, os movimentos no bebé devem ser suaves, simétricos e precisos para que, com a repetição, possam consolidar o ganho de novas capacidades. O toque e seus benefícios podem também ser explorados através da massagem, que parece ajudar no controlo emocional, na melhoria da qualidade do sono e de sintomas intestinais comuns como as cólicas ou o refluxo. O bebé, ao dormir e estar mais calmo, pode também desfrutar dos períodos em que está alerta de uma maneira mais eficaz.

É evidente que é da responsabilidade dos profissionais de saúde passar aos pais estes conceitos e aqui o papel do fisioterapeuta, como conhecedor das etapas de desenvolvimento psico-motor da criança, pode ser crucial. Muitas das crianças prematuras, ainda que com todos estes cuidados, apresentam atraso no desenvolvimento cognitivo e motor, não raras vezes percebidos tardiamente.

A intervenção precoce é de grande utilidade por permitir identificar as competências motoras correspondentes a cada idade, promovendo a sua aquisição de forma sequencial. De movimentos grosseiros para os mais finos, do controlo de cabeça, para o rolar, sentar, ficar em pé e andar.

Resumindo, um bebé prematuro com um cérebro imaturo, carece de intervenção especializada e de experiências positivas, já que é a experiência que molda o seu desenvolvimento cognitivo e motor. O modo como o posicionamos, como lhe tocamos e as sensações que lhe damos determinam o modo como irá evoluir e crescer.

Repetitiva eu, certo? No fundo, procurei fazer consigo aquilo que teremos que fazer para ensinar um bebé (na verdade, qualquer ser-humano): dar informação sensorial organizada, sequenciar, dar tempo e repetir para consolidar.

Assim é no início de tudo e no resto da vida.

Ana Margarida Monteiro _ Fisioterapeuta