Em Defesa Do Amparo Do Bebé

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Dar colo e consolo ao bebé sempre que ele os pede, é fundamental para o fortalecimento dos laços afetivos entre a dupla mãe-bebé, e o mesmo acontecerá entre o pai e bebé.  Vínculo seguros garantem à criança um bom desenvolvimento psicológico e emocional, que serão indispensáveis ao longo de toda a sua vida.

 

Fome, frio ou desejo de contato com o corpo da mãe são as principais razões do choro de um bebé pequeno. Dores, cólicas, fraldas molhadas ou sujas, ou qualquer outro tipo de desconforto são mais razões que levam o bebé a chorar desesperadamente até que lhe peguem ao colo, e sinta o alívio de ser alimentado, acarinhado, limpo, aquecido, embalado. E mesmo que não haja remédio imediato para acalmar com o seu choro desesperado, como acontece no caso das cólicas, não há nada mais reconfortante do que o colo da mãe, quente e seguro. Sentir-se embalado e apertado junto ao coração da mãe, é ainda e sempre o melhor dos consolos para todos os tipos de mágoas do bebé. Interessa, acima de tudo, que ele sinta que os seus apelos têm eco, que não a deixam a chorar no escuro. Afinal, ainda não há muito tempo estava dentro do útero materno, um lugar já distante que o continha e protegia.

Ouvir um bebé a chorar. No entanto, o choro e a agitação podem não surgir logo nos dias a seguir ao nascimento, mas algum tempo depois. Na verdade, com algumas exceções, são muitas as mães que podem tirar algum partido desse tempo precoce, em que o recém-nascido dorme horas seguidas, despertando suavemente para logo adormecer de seguida. Por vezes é preciso tirá-lo do berço e acordá-lo para o alimentar. As mulheres que são mães pela primeira vez não imaginam o tempo que está para vir, quando os bebés começam a aumentar de peso e a despertar para o meio que os cerca, e a ter as exigências próprias de um ser ainda muito pequena. O instrumento de que dispõem para se fazerem ouvir, é o choro, claro. Diga-se de passagem que muitas mães, mais atentas e intuitivas que outras, conseguem perfeitamente entender e distinguir as diferentes razões que levam o seu bebé a chorar. Sabem se ele chora porque está com fome e quer mamar, porque sente uma dor, tem sono e está cansado, ou ainda, simplesmente sente a falta de um colo que o embale. Pode ainda dar-se o caso de ser «um bebé colérico», designação dada a certas crianças que todos os dias choram convulsivamente a uma determinada hora do dia, normalmente entre as sete e meia da tarde e as dez da noite, sem uma razão visível, embora se suponha estar associada ao «stress» e à sensibilidade específica de cada bebé. São momentos que às mães parecem eternos por serem muito cansativos, sobretudo pelo desgaste que comporta cuidar de um recém-nascido, situação que pede um tempo de adaptação. Normalmente, o choro do «bebé colérico» pode durar cerca de dez minutos, meia hora ou mais, mas não há muito a fazer, a não ser pegar-lhe ao colo e confortá-los até que se calem. O consolo para as mães desesperadas e exaustas, que começam a ficar inquietas à medida que se aproxima a hora fatal do fim do dia, está na confirmação que estes choros regulares do bebé tendem a desaparecer com o tempo, terminando por volta dos dois meses de idade.

A arte de acalmar um bebé. Embora seja difícil e às vezes quase impossível, convém que a mãe mantenha a calma, recorrendo a exercícios de respiração, por exemplo, para poder segurar e conter o bebé nos seus braços, até que ambos possa respirar com mais tranquilidade. Nestes momentos, a mãe pode passeá-lo num sítio tranquilo e pouco iluminado da casa, pôr uma música suave ou dar-lhe um banho morno que o ajude a relaxar. Há quem use o método do «contato de pele», que consiste em despir o bebé e aconchega-lo á própria pele da mãe ou do pai. Esse contato físico tem, muitas vezes, a capacidade de acalmar o bebé.

O estado de agitação, assim como o choro convulsivo do bebé, também pode ser desencadeado quando é levado pelos pais para um ambiente diferente e barulhento, fora do meio a que está habituado. Ele acaba por «estranhar» esse novo ambiente, o que o leva a reagir com um choro descontrolado, de puro medo e difícil de acalmar. Não é, assim, aconselhável, sujeitar o bebé a este tipo de situações, defendendo a ideia de que tem de se habituar a outros ambientes. Os bebés muito pequenos reagem mal a este tipo de situações, e atuam de acordo com elas, mostrando o seu desagrado e mal-estar, chorando insistentemente até ficar exausto ou até se sentir em segurança, no seu ambiente seguro.

O cisma das «manhas». Os efeitos do choro de um bebé variam conforme a atitude da mãe, da avó, ou de quem toma conta dele. Quando não há motivo aparente para o seu mal-estar, como no caso em que ele acabou de comer e tem a fralda seca, a mãe pode afligir-se por não perceber de que se queixa o seu bebé, e não sabe que fazer. Algumas mães não hesitam em pegar-lhe ao colo e embalá-lo sem condições nem dúvidas, outras recusam-se a fazê-lo para «não o habituar mal» e porque acham que não se pode dar cobertura às manhas do bebé. A ideia de que o bebé faz birras e é mimado está muito enraizada em muitos adultos, mesmo os que estão animados das melhores intenções. O cisma das «manhas», aliás, divide o mundo entre os que têm compreensão em relação às mesmas, e os que não a têm de maneira nenhuma. Estes últimos, recusam-se terminantemente a atender o choro do bebé sem que haja uma razão aceitável para o fazer, optando por deixá-lo chorar o tempo que for preciso até que se «habitue» a ficar sozinho e em silêncio no berço. Todos já ouvimos alguém evocar certas máximas do tipo «chorar faz bem aos pulmões», «um bebé precisa de chorar» ou «pegar num bebé sempre que ele chora é mimá-lo demasiado», o que dá lugar a que ganhe «maus hábitos», tal como o apego prejudicial do recém-nascido ao colo materno, tido como inconveniente e insustentável por razões «indiscutíveis».

Na perspetiva das sociedades modernas ocidentais, deve incentivar-se a independência do bebé o mais cedo possível. Não se sabe ao certo se sempre foi assim, mas por volta dos anos 40/50, Benjamin Spock, então um jovem pediatra, reuniu na sua obra «Meu filho, meu Tesouro» uma série de novas diretivas em relação ao modo de cuidar das crianças. Gerações de mães seguiram escrupulosamente os seus conselhos, entre o quais se encontrava, como não podia deixar de ser, o modo de lidar com o choro do bebé, especialmente na hora de ir dormir. Graças aos seus conselhos, tornou-se pratica corrente, um pouco por todo o lado, «educar» a criança a adormecer pelo método que consistia em habituá-lo progressivamente a ficar sozinho no berço e num quarto separado dos pais, deixando-a chorar todos os dias um certo período de tempo, o que podia ir até ao quarto de hora, até ela «aprender a lição», isto é, até conseguir adormecer sem a companhia de um adulto e fazê-lo sem protestos. Não se sabe quantas gerações de mães leram o livro do Dr. Spock, e aplicaram nos seus bebés o método que consiste em deixá-lo sozinho a chorar no berço ou na cama até à resignação final, adormecendo pouco depois, em soluços e lágrimas. Mas é certo que muitas o fizeram, algumas sem qualquer dúvida, outras com algum remorso. Hoje, é provável que as novas gerações de mães e de pais não tenham conhecido a obra de Spock, sendo certo que se sabe cada vez mais sobre as necessidades essenciais do bebé, entre as quais o consolo, o colo e a interação com os pais.

Ansiedade materna. Sobre o excesso de inquietação mostrado por algumas mães em relação ao bem-estar dos bebés, especialmente em relação ao primeiro filho, não é segredo que essa ansiedade recai sobre a criança. Contudo, é simplesmente inevitável, e culpar a mãe por se sentir ansiosa é inútil e também prejudicial. À ansiedade junta-se a culpa, que acaba por trazer mais ansiedade. Assim, é imprescindível acompanhar a mãe na sua inquietação, papel que pode ser desempenhado pelo pai, ou por alguém que seja próximo. Estar simplesmente ao lado dela, e substituindo-a na tarefa de sossegar o bebé, é muitas vezes o suficiente para a calma se instale aos poucos, sem ser preciso teorizar sobre as desvantagens e as consequências da ansiedade materna. Respirar fundo duas ou três vezes antes de atender ao choro do bebé pode ajudar a controlar os impulsos de superproteção e de medo, que de resto são saudáveis numa mulher que acaba de ser mãe, em especial do seu primeiro filho.

O consolo do bebé. A proximidade física, de pele, entre mãe e filho proporciona conforto emocional e físico no bebé. É sabido que a frustração repetida e continuada das necessidades viscerais de sobrevivência numa criança, ou seja, a necessidade de carinho, alimentação e calor, provocam tensões psíquicas e musculares que podem durar a vida inteira. «Um bebé que é deixado desnecessariamente a chorar horas a fio, da mesma forma que uma criança se sente tensa e  culpada por não controlar as suas funções biológicas, vivem quase duas décadas de condicionamento para aprender a reprimir ou distorcer os seus sentimentos naturais, e essas situações acarretam ‘stress’ crónico», diz David Boadella, no seu livro «Correntes de Vida». É importante estar atento às necessidades do bebé e da criança, procurando atender a essas mesmas necessidades. Em sociedades não ocidentalizadas, a mãe carrega o filho enfaixado junto ao peito ou preso às costas, até à idade em que começa a andar, ao passo que a sociedade atual valoriza a disciplina da independência da criança desde muito cedo, esquecendo que há um tempo para ser dependente, física e emocionalmente. Hoje sabe-se, mais do que nunca, que a interação entre a mãe e o bebé, e entre o bebé e o pai também, são fundamentais para o fortalecimento dos laços que os unem, promovendo um saudável desenvolvimento psicológico, físico e emocional da criança e toda a sua vida depende da construção desse laço.

 

Ana Vieira de Castro_ Jornalista