Dor, atitude e a minha avó, relatos genealógicos

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A minha avó tem 92 anos e durante a quarentena fazia bicicleta estática por não poder ir à rua. Quando pôde desconfinar, saía para dar voltas ao jardim Diana. Ela tem muitas dores no joelho esquerdo, calos nos pés que a chateiam de cada vez que dá um passo e uma dor no ombro que a tem andado a “moer”. Mas não deixa que as dores a parem.

Eu sinto-me com uma sorte tremenda em a ter como avó. E poderia dizer-se que ela tem muita sorte em estar assim com a sua idade. Mas a verdade é que ela não tem sorte apenas. É muito mais que sorte. É uma questão de atitude.

Mas o que tem a atitude que ver com a dor e incapacidade?

Primeiro, definamos dor. A International Association for Study of Pain (IASP) define dor como “uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada a uma lesão tecidular actual

ou potencial, ou descrita nos termos de cada lesão”. Uma definição relativamente complexa, tal como o fenómeno em si. Mas descascando aquela frase, interessa perceber que a dor é uma experiência sensorial. Não é observável, não há um exame que a quantifique. Podemos sim avaliar o estado de um tecido ou articulação com vários tipos de exames para tentar encontrar uma lesão que a possa explicar. Mas a própria definição o diz – não quer dizer que a haja.  Todos conhecemos alguém que ao fazer um exame descobriu ter lesões e “nunca tinha dado por elas” ou seja, nunca tinha tido dor. Também conhecemos casos de pessoas com dor intensa e com exames imaculados.

Mais interessante ainda é que a dor depende das nossas emoções, da nossa personalidade e modo de agir.

Como assim? Imagine que está numa festa inesquecível com amigos e que ao dançar torce o pé. Sente uma dor enorme (e ela tem razão de existir) mas logo aquele ambiente faz esquecer a dor; afinal não é todos os dias que pode dançar até às tantas!

Imagine agora que discutiu com a cara metade, tem que sair para espairecer. Na rua, tropeça e torce o pé – a mesma lesão de há pouco. A dor é intensa. Bolas, parece que tudo corre mal! E o que vai ele ou ela dizer quando chegar a casa? Porque tinha de acontecer a si, logo agora?

A lesão do pé é igual mas de certeza que a dor não terá a mesma intensidade em ambas as situações: –os ligamentos do pé necessitariam do mesmo tratamento nas duas situações mas acha que a fisioterapia teria o mesmo resultado nas duas? Não precisaria a intervenção de se adaptar ao contexto?

Isto quer dizer que a dor depende do modo como a percepcionamos e pode mudar ao longo do tempo. Uma dor nunca vem só, traz com ela os nossos sentimentos, medos, expectativas, memórias. E depois, o que não raras vezes acontece, é que vem para ficar – a esta dor prolongada, com duração de mais de 3 meses, dá-se o nome de dor crónica. Por vezes a dor torna-se a única coisa que de facto existe (já nem a lesão lá está, mas a dor continua).

Este lado tão subjetivo da dor fez com que os investigadores se tivessem virado para a análise das atitudes das pessoas com dor crónica: parece que as pessoas com menos pro-actividade e menos estratégias para lidar com a dor, têm maior propensão para ter dor crónica. São usualmente pessoas com tendência para catastrofizar (fazer uma “tempestade num copo de água”), não procurar soluções e terem medo de se mexer, “não vá estragar”!

A minha tia é assim. Tem uma dor no joelho – quando lhe pergunto como está diz-me sempre o mesmo, que está cada vez pior. Quando lhe sugiro procurar ajuda responde-me já não valer a pena. Também tem dor no ombro e evita mexê-lo. Os pés são uma chatice e por isso anda menos, tem medo de cair. Ao descrever as mazelas da minha avó e da minha tia, poderão ser similares. Mas o impacto que elas têm na sua vida é tremendamente diferente e a longo-prazo tornam-se situações completamente diferentes!

Esta é a razão pela qual a dor deve ser contextualizada – os aspectos físicos são importantíssimos, mas também os psicológicos e sociais – tanto na sua avaliação mas principalmente no tratamento.

Dir-me-ão, “mas se cada um é como é, o que fazer?”

Recorro-me da genealogia novamente: importaria primeiro perceber quais os sentimentos associados às dores que a minha tia sente – há um sem número de questionários que permitem avaliar estes sentimentos e comportamentos. Depois, ela teria que entender o que é o fenómeno da dor para não a associar diretamente a uma lesão. Deveria ter boas experiências de movimento, sem dor. Aprender um ou outro truque para lidar com a dor, ter a sensação de que a controla. Poderia também ser importante conhecer casos parecidos, partilhar ideias com outras pessoas. Não digo que a sua personalidade mudaria, mas poderia de alguma forma moldar as suas atitudes. (Já conversar com a minha avó claramente não tem efeito, que santos de casa não fazem milagres!)

Nestes princípios de tratamento algumas áreas são determinantes, como a medicina, a psicologia e a fisioterapia. Porque interessa excluir causas tratáveis de dor, compreender a pessoa para ajudá-la a encontrar estratégias e ultrapassar a incapacidade.

Se de alguma forma se reconhece em algumas destas características ou acha que conhece alguém com elas, procure ajuda. Há quase sempre solução para a dor.

O que gostaria que tivessem feito com a minha tia é o que de alguma forma tento fazer consigo: informar, demonstrar e facilitar a mudança.

O que faço com a minha avó, isso é homenagem. Afinal, feliz dia dos avós.

POR: Ana Margarida Monteiro _ Fisioterapeuta