Dia das mentiras e o Repouso

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O mês de Abril começa com aquele dia em que pensamos ligar ao chefe a dizer que estamos de cama com dor nas “cruzes” – o humor do dia das mentiras serviu-me de desculpa para falar de algo muito sério que é a lombalgia e o sobre uso do repouso.

A região lombar (a porção inferior da nossa coluna), pela sua anatomia e biomecânica, é a que mais sofre de dores: acredita-se que ao longo da vida 70% da população mundial venha a ter lombalgia. Por outro lado, em Portugal a prevalência de dor lombar crónica é de cerca de 37%. Ou seja, é muito provável que tenha ou venha a ter dor lombar e corre algum risco de que ela se torne crónica, principalmente se reunir factores como idade mais avançada, dependência de analgésicos, tendência para a catastrofização, outras co-morbilidades como diabetes ou hipertensão arterial, depressão ou medo ao movimento.

E o que fazer quando essa (quase inevitável) dor aparece?

Se estivéssemos em 1980, o mais provável seria que o seu médico lhe recomendasse repouso na cama. De facto, o repouso na cama foi introduzido no século XIX como forma de minimizar as exigências metabólicas e permitir que o corpo se focasse na cura de diversas doenças, nomeadamente infecciosas. E nestes casos o repouso é, de facto, necessário. O problema é que este repouso foi sendo a solução para muitas outras condições mesmo sem evidência de que seria vantajoso e acarreta consequência graves para o sistema musculoesquelético, cardiovascular, respiratória ou cognitivo, que não devem ser descuradas e que só começaram a ser percebidos nas décadas de 80 e 90.

O que acontece ao músculo quando o nosso corpo está imobilizado? Surge uma diminuição da massa muscular e do tamanho das suas próprias fibras, da sua tolerância ao esforço e da sua actividade elétrica. Também a libertação de citocinas pro-inflamatórias incrementam a perda muscular, sendo que após uma só semana de imobilização podemos perder cerca de 40% da nossa massa muscular!

Estes números falam por si de tão elevados, mas pensemos também na componente psicológica deste processo: aparece uma dor lombar de repente, que o incapacita e fica preocupado. Vai ao médico, que despista etiologias mais graves, provavelmente prescreve alguma medicação e recomenda repouso. À medida que vai repousando, se por um lado os analgésicos e o descanso até poderão ajudar, caso fique longos períodos deitado começa a ficar dorido das posições estáticas. De cada vez que se levanta vai-se sentindo mais cansado e fraco e isso transtorna-o (e as mudanças de posição, que são uma tortura!). Falta ao trabalho, ao jantar com os amigos e por estar mais triste e inactivo não liberta hormonas do bem-estar e entra num efeito bola-de-neve que torna o que era um surto quase natural de dor num problema mais grave, com consequências a vários níveis e que pode mesmo tornar-se crónico.

O que quer dizer a palavra crónico? Clinicamente, qualquer sintoma ou patologia que se estenda por mais de 3 meses. No caso da dor, o seu significado é mais do que isso. Sabe-se actualmente que uma dor crónica implica alterações no cérebro na forma como detecta e lida com a dor, levando a que, mesmo não havendo já razão física para a dor, a continuemos a sentir e inclusivamente de forma mais severa. Como se se tratasse de um erro no software! O que recomenda um informático? Sair do programa e voltar a entrar – é exactamente isso que os investigadores perceberam. Que para lidar com este problema a pessoa tem que desenquadrar e reenquadrar o que significa que o primeiro passo para a sua resolução é perceber o que é a dor e como ela está a enganá-lo, para poder gerir os seus sintomas e lidar com ela de forma diferente e activa (aos interessados, leiam o Explain Pain de Butler e Moseley).

Eu escrevi ACTIVA! Parece ser esse o segredo em (quase) tudo.

Numa dor crónica ou mesmo nestes surtos agudos, ainda que pequenos períodos de repouso possam ser indicados para lhe trazer momento de conforto, a actividade física é fundamental para acelerar a redução de sintomas em todas as suas dimensões: física, psicológica e social. Sabe-se também que o retorno mais rápido às rotinas está associado a uma recuperação mais rápida do que períodos mais longos de imobilidade.

É possível que estando numa situação destas (ou imaginando-se numa) se questione relativamente ao tipo de actividade física a fazer, que tipo de exercícios milagrosos proponho. A análise da evidência existente mostra-nos que tanto faz, desde que seja alguma coisa. Estranho, não? Mas de facto não parece haver diferenças quanto à eficácia da fisioterapia, manipulação, exercício físico ou alongamentos.

A interpretação desta evidência parece-me mais importante do que ela mesma: perante um acesso de dor, e excluindo lesões que careçam de intervenção médica especializada, importa sentir-se capaz de a gerir ou de pedir ajuda a quem acredita que o possa ajudar. Porque os processos de dor fazem parte da vida e a dor é um sistema de alarme maravilhoso de que dispomos. Procurar um fisioterapeuta em que confie poderá ser uma estratégia. Há evidência que o tratamento osteopático lombar, dorsal ou mesmo visceral ajuda a reduzir sintomas de lombalgia. Se gosta de água, pode sentir-se melhor relaxando na piscina. Se frequenta um ginásio, poderá gostar de fazer uma aula mais segura, de Pilates por exemplo. Poderá lembrar-se de um alongamento ou exercício que fez uma vez e o ajudou bastante. Pode tentar caminhar um pouco ao som de uma música de que goste, talvez até dar um pezinho de dança (melhor um slow) com a sua cara-metade.

O que faz pouco importa. Desde que faça alguma coisa, mesmo que essa alguma coisa passe por pedir ajuda. Parece mentira. Mas é a verdade que lhe trago para este dia das mentiras.

POR: Ana Margarida Monteiro _ Fisioterapeuta