Dentes e postura – o ovo ou a galinha?

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Respirar, mamar, chuchar, mastigar, engolir, falar, dentes de leite, dentes definitivos, postura. Não, não foi uma gralha. Todas estas palavras se relacionam ainda que a relação com esta última não faça parte do nosso senso-comum. No entanto, ela é bem mais antiga que nós mesmos – sabe-se que as mudanças do sistema estomatognático (todo o sistema que permite comer, mastigar, engolir, falar) dos nossos antecessores se relacionam com o bipedismo, mais do que se relacionam com a alteração da alimentação, tal como se pensava anteriormente.
Mas como explicar esta relação entre dentição e postura, e porque é ela importante?
A primeira explicação é anatómica e a mais fácil de compreender se pensarmos na localização da cavidade oral: a forma como os dentes se relacionam entre si (denominada oclusão dentária) interfere com a posição dos maxilares, os quais se articulam com os ossos do crânio. Todas estas estruturas são ligadas pelos músculos que movem a nossa cara, boca e língua, os quais são enervados por nervos que saem do cérebro através de orifícios no crânio.
Por sua vez, o crânio e a mandíbula “assentam” na cervical, para além dos músculos que os unem, bem como às omoplatas, costelas e ombros. Por toda esta relação, quase indissociável, surgiu uma terminologia que relaciona todas estas estruturas: sistema crânio-cervico-mandibular.
Como o próprio nome indica, uma alteração na mandibula poderá causar alterações no crânio e na cervical ou vice-versa.
Vamos testar estas relações tal como um fisioterapeuta analisa uma postura: de perfil e de frente. De perfil, uma mandíbula pequena ou um maxilar superior grande denunciado normalmente por “dentinhos de coelho” está relacionada com uma anteriorização da cabeça. Já uma mandíbula grande (visível normalmente por um queixo mais pronunciado) está relacionada com uma retificação da curvatura cervical. A acrescentar à estrutura óssea, está uma estrutura muscular essencial na posição do nosso corpo no espaço, a língua. A posição da lingua na boca e o espaço que ela tem (com uma mandíbula ou maxilar pequenos, fica com menos espaço) determinam muitos aspectos da nossa postura, nomeadamente se o nosso tronco está “inclinado” para a frente ou para trás.
Olhando agora de frente, e pensando em perdas dentárias ou um problema de oclusão de um só lado, as mandíbulas crescem de forma assimétrica e os músculos trabalham de forma também ela assimétrica, o que normalmente se relaciona com escolioses.
Para acrescentar “à festa”, a nossa anatomia coloca estruturas importantes para o nosso equilíbrio como o ouvido interno exactamente atrás da nossa articulação temporo-mandibular pelo que estes sistemas não se podem dissociar. Este sistema vestibular trabalha em conjunto com visão e a propriocepção a fim de nos indicar como está o nosso corpo no espaço. Tem sido demonstrado que a perda de suporte oclusal e instabilidade da posição da mandíbula podem influenciar a distribuição do peso nos pés e causar alteração do equilíbrio.
Fica evidente a íntima relação do nosso sistema dentário e a nossa postura, criando um “elo neuro-fisiológico”.
A questão agora que se coloca é, quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Ou seja, será que foi a oclusão dentária que levou a alterações posturais ou foram as alterações posturais que influenciaram a posição dos dentes?
Ao que parece o ovo e a galinha surgiram os mesmo tempo porque se é verdade que alterações nos dentes influenciam a nossa postura e estabilidade, não menos verdade é que uma alteração numa outra parte do corpo pode alterar a mecânica da nossa boca e a posição dos nossos dentes.
Assim, perante alguma alteração da função do aparelho estomatognático da criança (ou do adulto!), é importante fazer-se este estudo a fim de perceber a origem desses problemas e poder actuar na sua base. Dentistas, posturólogos, fisioterapeutas devem habituar-se a trabalhar conjuntamente. Só com uma intervenção abrangente se poderão atingir resultados definitivos e também eles abrangentes.
Vamos agora então tirar conclusões mais práticas, que a aula de anatomia já vai extensa e neste momento deverá estar a utilizar a mandíbula para bocejar.
– Na criança, a forma como os dentes e língua se relacionam influencia actividades tão essenciais como a mastigação, a fonação e deglutição;
– Uma má oclusão poderá criar alterações posturais à distância como aumento de curvas ou escoliose; dor ou disfunção;
– Alterações na postura desencadeiam alterações na actividade muscular e afectar a posição de repouso da mandíbula e assim, dos dentes;
– A avaliação da postura e dos captores posturais desregulados (pés, olho, ouvido) pode permitir perceber se as alterações oclusais são causa ou consequência;
– Uma intervenção precoce na correção da oclusão pode corrigir deformidades e promover um crescimento simétrico e normal dos ossos dos maxilares e coluna vertebral
Portanto, e porque a temática deste mês se relaciona também com a forma como devemos promover o crescimento das nossas crianças, interessa avaliar esta relação dentes-postura precocemente para poder intervir de forma preventiva e evitar problemas no seu desenvolvimento.
Porque é como diz o ditado: de pequenino se (dis)torce o pepino! POR: Ana Margarida Monteiro _ Fisioterapeuta