Deixem-nos ser crianças

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Image of joyful friends having fun on playground outdoors

Queridos pais,

Façam-me um favor, enviem este beijinho ao vosso filhote e desejem-lhe, por mim, um Dia da Criança bem livre, bem feliz e tranquilo. 

Há algo sobre mim que precisam de saber. Tenho um defeito ENORME. Chamam-lhe defeito de profissão. Há quem diga que não relaxo por causa disto, outros que sentem alguma tensão quando eu estou por perto. Nada fácil de gerir.

A verdade é que quando saio à rua tenho os olhos postos em cada criança, em cada família. Reflito imenso sobre estes temas. Isto é a minha “praia”, é a minha grande preocupação, mais do que isso a minha paixão, ainda mais do que isso, a minha missão de vida. Aprendo a tempo inteiro com o que vejo e, normalmente, o que vejo faz-me escrever e falar sobre os temas.

Uma ida à rua representa para mim um conjunto enorme de estímulos e aprendizagens, (uma tentativa) de entendimento do ser humano e a forma como ele entende a ida à rua em família. E como os tempos mudaram!

Às vezes venho para casa de cabeça cheia, outras vezes, é o coração que vem cheio. Cheio de alegria. Ver famílias relaxadas é uma alegria que ninguém imaginaVer “pais-escravos”, preocupados, tristes e casais separados é de partir o coração.

Venho muitas vezes e infelizmente, de coração partido e cabeça cheia.

Mas eu sou das que tem esperança!

Numa destas noites, quando me preparava para dormir, peguei no telemóvel e escrevi no NOTEPAD – para não esquecer – mais uma matéria… e escrevi isto “DEIXEM-NOS… DEIXEM-NOS SUJAR, DEIXEM-NOS DORMIR EM CASA DE AMIGOS OU FAMILIARES, DEIXEM-NOS ANDAR SEM VOCÊS,…” Deixá-los estarJust let them be!

Vejo os pais tão preocupados, constantemente. Eu considero até normal a preocupação, mas até a preocupação tem limites, não tem? E o que me dizem, quando constantemente a passamos para eles?

Complica-se TUDO! Ou pelo número de sapatos que se leva para umas férias que não tem qualquer sentido, a sopa tão obrigatória em todas as refeições, como se eles fossem morrer à fome e desnutridos senão a comerem. Por outras palavras:

DEIXEM AS CRIANÇAS SER CRIANÇAS, pode ser?

Não se preocupem tanto com tudo. Se estão sujas, se saem da praia sem areia nos pés, se vão para o mar ou piscina sem braçadeira, que não comem a sopa por 3, 4, 5, dias, que não tenham brinquedos, que não tenham nada para se entreterem, que já tenha passado da hora de ir para a cama, se não adormeceram no carro, ou se acordaram cedo demais, se estão aborrecidos sem nada para fazer, se estão a brincar sozinhos, se podem cair se continuarem a correr.

Andamos sempre em cima deles. Sempre a controlar tudo: se o rabo ficou bem lavado, se os sapatos estão bem atados, se a roupa está bem vestida e condiz com tudo, se o cabelo está arranjado e o laço joga com o resto. Se não apanha frio, ou calor a mais.

Nós fazemos com que eles sejam completamente dependentes de nós. É só responsabilidade nossa! Basta um “não consigo!” que vamos logo fazer. Não estamos a ajudar a crescer. Estamos a impedir o seu crescimento.

Deixem-nos! Relaxem! Fiquem de olho, sempre, mas sem tocar, sem se meterem demasiado perto. Deixem-nos criar defesas SOZINHOS . Deixem eles entenderem-se; se estiverem sozinhos, que procurem amigos, ali do lado, para brincar. Ensinem-lhes a andar de baloiço, não os empurrem.

Deixem que eles se fartem de estar ali, nos sítios. Não criem por eles, deixem-nos lidar com esse sentimento de tédio, faz-lhes tão bem!

Abram mão deles, encorajem-nos a ir, não a ir só com vocês, só se os pais forem.

Que importa se a mão está suja, ou as roupas? Faz parte! Deixem-nos andar sem ser pela vossa mão. Se assim for, eles sozinhos nunca saberão o que fazer. Nem terão atenção a nada. Deixem-nos correr, mesmo que vocês já conheçam o final da história.

Crianças que não caem não se levantam. Crianças que não caem não aprendem a cair, muito menos a levantar.

Lembram-se como era no vosso tempo? Vamos evitar ser uns super-protetores assustadores que justificamos tudo com notícias que vemos nos telejornais, diariamente. Há sempre um drama para contar, enquanto isto, a tempo inteiro estamos a matar mais e mais a infância. E andamos nisto. Somos uns ladrões de infância e o velho do saco, achando que tudo o que se faz é para o bem deles.

Chegará o dia em que eles virão, mais velhos e cheios de dificuldades, dizer “foste tu, mãe e pai, foram vocês que me fizeram assim! E agora?”. 

Antes que sejam eles, adultos tristes a pedir ajuda, ajude-os já, desde pequeninos. Eu estou aqui para o que precisarem, sempre. Vivo para ajudar famílias.

Obrigada por estarem aí.

Nunca se esqueçam que isto é uma Carta d`Amor para todos vocês. Não pretendo julgar, meus amores. Nem poderia! Mas vamos acordar para aquilo que andamos a fazer.

Contem comigo!

Mil beijinhos grandes, Carolina 

POR: Carolina Vale Quaresma _ Coach Familiar _ Terapeuta do Sono Infantil