DEIXEI O MEU EMPREGO DE SONHO PELA MINHA FAMÍLIA

0
513

POR: MARTA RODRIGUES BLOG BIRRAS EM DIRETO

Fazer televisão sempre foi dos meus maiores sonhos, comu­nicar através de uma câmara e conseguir passar a mensagem de uma forma clara e com entusiasmo estava no meu ADN. Licenciei-me em Ciências da Comunicação -Jornalismo, mas estava longe de me integrar na informação, o meu coração ba­tia mais rápido com o entretenimento, as borboletas no estô­mago apareciam quando ouvia as palavras “está a gravar” e lá ia eu novamente conduzir uma grande entrevista ao músico ou ator do momento. A adrenalina da televisão estava-me no sangue e quem me conhece sabe o quanto eu amava o meu emprego.

De repente tudo mudou … Na altura estava a apresentar um programa de turismo que me permitia conhecer os mais be­los locais de todo o mundo, sentir a sua essência e fazer com que o telespectador tivesse a possibilidade de viajar sem sair de casa. A câmara ligava e o sorriso estava lá, ninguém conseguia perceber o que ia no meu íntimo, pois nunca coloquei o meu trabalho em risco. Na altura o meu filho tinha um ano e meio e, como devem imaginar, fazer um programa de turismo exi­ge a minha ausência por dias consecutivos . Se por um lado o programa estava com boas audiências e o feedback dos meus superiores era ótimo, em casa a nossa família estava a desmoro­nar-se. A minha ausência trouxe muita ansiedade ao meu ma­ rido e abalou a vida do meu filho. O Rafael deixou de comer na escola, raramente dormia, perguntava constantemente por mim e tinha-se tornado uma criança bastante insegura. Quan­do chegava das viagens ansiosa pelo seu abraço, ele recusava-se a dá-lo, a revolta era grande! Passaram-se meses nesta situação, consegui esconder de toda a gente o meu sofrimento, mas não podia permitir que o mais importante da minha vida fosse afetado pelo meu emprego, por mais que fosse o emprego de sonho. Faltava-me a coragem para dar o passo mais importante da min h a vida, na realidade estava a ser muito difícil pensar em acabar com algo seguro e que pensava ser eterno. Regressei de viagem numa sexta-feira e esperava-me uma se­ mana de férias. Na segundafeira encontrei-me com uma ami­ga  para espairecer e meter a conversa em dia. Comecei a sen­tir-me um pouco tonta, os calafrios eram constantes e desatei num choro compulsivo, a tensão estava bastante alta e o meu coração tinha disparado sem aviso prévio. Desmaiei e quando acordei já estava a ser transportada numa maca para o hospital. Não percebia o que se estava a passar, pois nunca me tinha acontecido tal situação. Fui atendida por uma médica muito carinhosa e com alguma paciência pediu-me para lhe contar os acontecimentos recentes da minha vida . Rapidamente chegá­mos à conclusão que este ataque de ansiedade tinha uma razão mui to forte. Todo o stress e sofri mento acumulado durante os últimos meses tinha-se manifestado desta forma . Caí em mim a partir desse dia e com o apoio da família decidi deixar o meu emprego para trás. Mas o medo da mudança era enorme. A minha mente estava constantemente a boicotar­-me, pois pensava muito na incerteza do futuro, de estar efeti­va a fazer o que mais amava, de não saber se voltaria à caixinha mágica, se seria capaz de regressa r, dos ajustes monetários que teriam de ser feitos…Tudo isto assombrou a minha vida. Todo o processo foi muito difícil e demorei muito tempo a fazer o desapego, mas felizmente consegui.                                                                                                                      A relação com o meu marido mel h orou imenso e o sorriso e a paz do meu filho tinham regressado. O meu coração podia finalmente descansar.                                       Passaram -se alguns meses e estava prestes a dar a notícia mais inédita da minha vida: estava grávida de gémeos! Hoje somos cinco, uma família numerosa com muitos desafios e aventuras diárias, mas muito feliz. Sinto-me completa, confiante e com vontade de gritar ao mundo que estou preparada para voltar a fazer o gue mais amo a nível profissional. Não quero pensar que tenha dito um adeus ao pequeno ecrã, mas sim um até já! •

Fotos: Dois é par fotografia