CRIANÇAS FELIZES: Amor, conhecimento, e realização pessoal

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Image of happy boys and girls lying on a green grass

A família moderna, caracterizada pela ternura e pela intimidade que liga os pais aos filhos está a anos-luz de épocas remotas em que as crianças tinham um estatuto insignificante. Há cerca de dois séculos atrás o amor em família estava longe de existir como hoje o conhecemos, e a felicidade não era, sequer, equacionada. Hoje dispomos de instrumentos para amar melhor os nossos filhos. 

Viver em família não é o que era, em comparação com a realidade que se vivia há séculos atrás. Hoje, assumimos claramente o amor pelos nossos filhos e tentamos, o melhor que podemos, faze-los felizes. E apesar de todas as angústias e de todas as tensões com que nos debatemos, «a maioria das famílias são equilibradas», garante Leonor Castro, psicóloga. É verdade que há problemas e dificuldades, que podem gerar «alguns desequilíbrios que poderiam deixar de existir», mas a situação não é catastrófica, tanto mais que «começamos a ter mais cuidado em relação ao que acontece». Afinal, o conhecimento psicológico tem progredido a passos largos, e cada vez mais recorremos aos consultórios de psicologia, nós e os nossos filhos, sem sombra de complexos. Por vezes não é fácil responder às dinâmicas nem às exigências que dominam a nossa vida, criadas pelas sociedades ocidentais, com todos os desgastes, medos e angústias que elas acarretam. Mas a verdade é que estamos cada vez mais conscientes do que interfere na nossa construção psíquica, temos uma compreensão mais completa da realidade em que vivemos. Hoje, percebemos mais claramente que funcionamos como um todo, e que esse todo é o somatório da nossa história passada, sentimentos e emoções «infiltrados» desde cedo, da nossa história presente, e da capacidade individual para ultrapassar obstáculos, aprender e evoluir. Uma criança desenvolve-se tanto mais saudavelmente quanto melhores forem as sementes plantadas na terra fértil que é todo o seu potencial, sendo que as suas «raízes» mais sólidas são os pais, que transportam, pelo seu lado, toda a sua história pessoal e a da sua própria relação com os seus próprios pais, e ainda da relação entre o casal parental. Se acrescentarmos a toda esta nova consciência, de nós e dos outros, o desejo de nos aperfeiçoar, estaremos mais perto da satisfação, que por sua vez, se refletirá no grau de satisfação e realização dos nossos filhos.

Amor ausente. O caminho para chegar aqui, foi longo. E foi sobre a infância, em particular, que os olhares passaram a convergir, a uma certa altura do nosso desenvolvimento, num processo que alguns especialistas nestas matérias afirmam ter tido início há mais de cem anos, com a descoberta do inconsciente e da forma como ele se constitui a partir da infância mais precoce, por Freud, o médico de Viena. A partir de então, o discurso psicanalítico, refere Elisabeth Badinter, filósofa e ensaísta francesa, contribuiu largamente para “fazer da mãe a figura central da família”, sendo referida como a causa imediata, senão «a primeira, diz a autora», do equilíbrio psíquico do filho e do seu bem-estar. No entanto, até chegarmos a este ponto, que marcou uma viragem na história da psicologia e do conhecimento sobre nós próprios, um longo caminho foi percorrido. Na verdade, ao longo de vários séculos, a qualidade da relação entre a mãe e a criança, por um lado, e a importância da própria criança na sociedade, por outro, eram vistas de uma maneira bem diferente da forma como são hoje encaradas. Se a felicidade, o bem-estar e a satisfação pessoal da criança têm hoje um valor inquestionável, há mais de dois séculos nada disto acontecia. Na verdade, a criança tinha um estatuto muito reduzido, senão mesmo insignificante. A dar crédito à literatura, à filosofia, à teologia e às práticas educativas da época, na «ideologia familiar do século XVI», diz Badinter, verifica-se «que a criança contava pouco na família e chegava muitas vezes a constituir um incómodo real para a mesma».

Mulheres e crianças não tinham um valor social, o poder pertencia totalmente aos homens e era autoritário. O amor, como valor social e familiar, sobretudo na época anterior ao século VXIII, estava longe de ter o estatuto e a importância que hoje tem. “Chegava a ser-lhe atribuída uma conotação negativa”. Porque, por um lado, “os nossos antepassados tinham uma consciência aguda da contingência do amor”, graças às elevadas taxas de mortalidade, e por outro, “recusavam-se a construir fosse o que fosse sobre um alicerce tão frágil”.  Nessa época, o amor pelos outros, e em particular pelas crianças, era associado à passividade, ao enfraquecimento e à efemeridade perante a eminência da morte, muito diferente da ideia de identificação e compreensão do outro que hoje lhe atribuímos.

Longe de casa. A partir do século XVII, e ao longo do século XVIII, “os adultos mudam a sua concepção de infância e concedem-lhe uma nova atenção”. As mentalidades começaram a mudar, desenhando-se “uma nova imagem de mãe cujos traços se irão acentuando constantemente nos dois séculos seguintes”. A era das “provas de amor começou” mas foi necessária uma longa evolução para reconhecer “a particularidade da infância”. Se hoje nos queixamos de ter falta de tempo para os nossos filhos, o que é verdade, e os efeitos catastróficos que esse facto causa na sua auto-estima e na sua segurança interior, nestas épocas distante, mimos e ternuras eram traduzidos por “moleza e pecado” e tidos como sinais “de uma fraqueza culpada por parte da mãe”. “Em lugar da ternura, é o medo, a violência e a severidade que dominam o coração de todas as relações familiares”. A mortalidade infantil, nesta época, atingia números elevados, graças às condições precárias em que as crianças eram criadas, e ao abandono a que eram votadas. Logo após o nascimento, eram sistematicamente entregues a amas para serem amamentadas, sendo que as mulheres das classes dominantes foram as primeiras a separar-se dos seus filhos e as últimas, mais tarde, a mudar de atitude. Nesta época, nas classes burguesas abastadas bem como nas aristocráticas, as crianças só voltavam a casa por volta dos quatro ou cinco anos, para pouco tempo depois, por volta dos oito ou nove anos, as raparigas darem entrada em conventos e os rapazes em pensionatos, de onde saíam para casar, quando não seguiam a vida monástica. No século XVII e XVIII, “a criança viverá uma média de cinco ou seis anos na casa dos pais”, o que não significa que partilhasse, realmente, a vida com eles. Eram entregues aos cuidados de governantas e preceptores, que delas se ocupavam numa parte afastada da casa. Nessa época, acentua Elisabeth Badinter, «o filho do mestre mercador ou do mestre artesão, como o do magistrado ou do aristocrata de corte, conhecerá uma prolongada solidão, por vezes sofrerá de falta de cuidados e muitas vezes um real abandono moral e afetivo».

Inquietação e culpabilidade. Nos finais do século XVIII e princípios do século XIX o amor maternal aparece como um novo conceito. Em França, opera-se uma espécie de revolução das mentalidades. A imagem da mãe, e do seu papel face à criança, transforma-se radicalmente. «Abundam as publicações que recomendam às mães que se ocupem pessoalmente dos seus filhos, ‘ordenando-lhes’ que os amamentem elas próprias». Tratava-se, segundo referem as fontes de Badinter, de «impedir a todo o custo a hemorragia que caracterizava o Antigo Regime», ou seja, para travar a morte das crianças, e «produzir seres humanos» que viessem a ser a riqueza do Estado. E as mulheres responderam ao apelo, porque nele se infiltrava a ideia de felicidade e igualdade: se forem boas mães, serão felizes e respeitadas. E apesar de a resposta a este apelo tenha levado tempo a fazer-se sentir, «alguma coisa mudou em profundidade», no sentido em que as mulheres passaram a sentir-se cada vez mais responsáveis pelos seus filhos. Por conseguinte, sempre que não podiam ou não queriam assumir o seu dever para com os seus filhos, «a culpabilidade tomou conta do seu coração». Hoje, mais de dois séculos passados e depois de incontáveis mudanças, a nova consciência das coisas volta a culpabilizar-nos sobre a felicidade das crianças. É uma nova oportunidade para investigar as raízes desta nova culpa, repensando-nos em profundidade, sem dramatismos e com lucidez.

POR: ANA VIEIRA DE CASTRO