BEBÉ BEM AMADO

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A necessidade básica emocional é a da dependência, de poder contar com o outro. Nos primeiros meses de vida, o bebé precisa de alimento, conforto, colo, calor e afecto. Para suprir todos estas necessidades, é preciso uma mãe o entenda com o coração e o instinto, e que esteja disposta a aprender o que ele tem para lhe ensinar.

Ana Vieira de Castro

Quando nasce, o bebé já tem uma vivência e uma história repleta de sensações, de memórias e de competências desenvolvidas no útero materno, acumuladas ao longo da sua vida fetal à medida que o seu sistema nervoso foi amadurecendo. Hoje sabe-se que a mãe não é uma “desconhecida” para o bebé, muito pelo contrário. Nos meses passados no escuro, o feto conhece a voz da mãe, sente as palpitações do seu coração, o seu embalo e o seu estado de espírito. E o mesmo se passa com a mãe, que também desenvolve ao longo do tempo de espera uma relação particular, idealizada e íntima com o seu filho ainda por nascer. A partir da primeira ecografia, a mãe pode acompanhar o desenvolvimento da criança em vários estádios da sua formação, o que desde logo estreita o laço afetivo entre ambos. Ver o seu bebé «em direto» antes de nascer, envolve a mãe no seu bem-estar, leva-a a falar com ele, a estar atenta aos seus movimentos, a sentir a sua agitação. Quando o bebé finalmente nasce, e é colocado pela primeira vez nos seus braços, a vinculação afetiva já criada entre os dois prolonga-se num continuum de vida.

Necessidades substanciais. Com o nascimento, bebé e mãe começam uma história e uma nova fase de vida, sendo que a realidade psicológica e física entre a mãe e o bebé muda necessariamente. Desde logo, o contacto entre os dois passou, agora, a ser de “pele”, e do imaginado passou-se ao sentido, olhado e ouvido, com tudo o que isso implica de mudanças emocionais e psicológicas para a mãe e para o filho. Depois, o bebé exige cuidados constantes, dependendo totalmente da mãe para satisfazer necessidades básicas. O bebé, que acaba de viver a sua primeira grande separação, é frágil, está a viver a sua fase de vida precoce. Para sobreviver, precisa “do alimento, dos cuidados, do apoio e da mediação de uma criatura que o alimente e dê ao seu corpo calor e proteção”, dizia Françoise Dolto, pedopsiquiatra. Na falta desta proteção prolongada, a criança “pode morrer ou estagnar, sem se desenvolver”.

O espaço habitado e investido pela presença da mãe ou do primeiro cuidador deve tranquilo e protetor do bebé: “O calor da voz que o faz sentir seguro, o contacto com as mãos que o tocam e o trazem ao colo, e o ninho dos seus braços fortes” são essenciais para que se desenvolva satisfeito, apaziguado e feliz. Dotado à nascença de um encéfalo muito desenvolvido, continua Dolto, o bebé tem “uma precocíssima função simbólica”. A mãe que cuida dele e lhe permite sobreviver atendendo às suas necessidades substanciais, é “apreendida através das suas percepções subtis olfativas, auditivas, gustativas e tácteis, tornando-se representação na sua memória de sensações revitalizantes essenciais, sentidas no seu corpo como alguém que apazigua as suas necessidades, as suas dores”. A função simbólica, que nos ajuda a compreender a dependência do bebé em relação aos pais, e o papel que estes detêm na sua satisfação e prazer, é “responsável pela particularidade de cada ser humano, segundo todo o tipo de modalidades impressivas que acompanham a sua sobrevivência e o seu desenvolvimento até à maturação completa do seu sistema nervoso, dos dezoito aos vinte e cinco meses”, declara Françoise Dolto.

A importância do tempo precoce. Algumas décadas depois de Dolto, é hoje plenamente confirmado que a forma como as crianças são cuidadas desde a mais tenra idade e ao longo dos seus primeiros anos de vida, tem um impacto decisivo na forma como elas irão reagir muitos anos depois, na sua vida de adultas, não só às dificuldades como ao modelo de relações que irão estabelecer com os outros. Os bebés, sublinham os especialistas nestas áreas, são totalmente dependentes da habilidade materna e paterna em responderem adequadamente às suas necessidades. Se aprenderam a sentir como fonte de prazer o amor, o apoio, o conforto e a protecção que os pais têm por eles, sentir-se-ão suficientemente seguros e compreendidos. E sentirão o mundo como um lugar seguro, com o qual se relacionarão de uma forma positiva, com curiosidade e entusiasmo.

Instinto precário. Empatia é a característica e a qualidade que nos permite colocar na pele do bebé, perceber as suas verdadeiras necessidades e a forma como ele sente o mundo a que acaba de chegar. E de facto algumas mulheres não encontram segredos particulares no cuidar espontâneo e satisfatório do seu bebé, sendo que possuem uma intuição apurada e natural que lhes permite estar em sintonia com as suas necessidades por via de um mecanismo a que alguns chamam instinto maternal. Estão naturalmente à escuta das suas mais subtis inquietações e agitações, conhecem e distinguem as variantes do seu choro, e atendem-no instintivamente. Mas é bom que se encontrem convenientemente apoiadas, sobretudo nos dias que se seguem ao parto, em que sobrevem o cansaço e a confusão pela falta de horas de sono, sensação de isolamento e estranheza perante uma mudança tão grande nas suas vidas e incerteza da qualidade das suas respostas. Nesta fase, a mãe também precisa que “tomem conta dela”. Quanto mais tranquilizada e apoiada estiver, em melhores condições estará para cuidar do seu bebé. O pai da criança será, evidentemente a figura fundamental para acompanhar a mãe e facilitar-lhe as novas tarefas.

Nem todas as mulheres, porém, são naturalmente dotadas pela natureza de paciência ilimitada, e nem todas sabem oferecer ao seu filho uma situação de dependência ideal, sendo que essa é uma necessidade básica do ser humano, particularmente nos primeiros tempos de vida: poder contar com o outro. Especialistas na área do desenvolvimento do bebé, confirmam de que o amor materno não é uma característica inerente a todas as mães. Ou seja, nem todas as mulheres que têm um filho se tornam mães, e não é porque não o desejem. São várias a razões: confusas por viverem demasiados acontecimentos que não controlam, pela novidade de terem de cuidar de um ser «estranho», pelo medo e pela intensidade de emoções contraditórias. O instinto maternal, como dizia a historiadora e socióloga Elizabeth Badinter não existe. No entanto, sabe-se que os pais e as mães que foram bem amados pelos seus pais, serão espontaneamente carinhosos e bons cuidadores.