AUTISMO, 10 COISAS QUE O RODRIGO QUER QUE SAIBAM SOBRE ELE

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Não é fácil ser mãe. Ponto. E não é fácil ser mãe de um filho com Perturbação no Espectro do Autismo.

O facto de, no caso do Rodrigo, ser num nível ligeiro, faz com que muitos nem sequer se apercebam dos problemas que tem. Mas eles estão lá, eles existem e influenciam o bem­-estar do meu filho.

É verdade que muitas vezes faço questão de não o apregoar, porque não quero que o tomem como diferente, porque evito “tratamentos especiais”, porque receio que o vejam como o coitadinho, enfim… mas a verdade é que há uma realidade à qual não posso fugir: o Rodrigo é diferente e em algumas si­tuações é preciso agir diferente com ele.

 Não há volta a dar quanto a isto.

As situações são muitas e os julgamentos ainda mais. Porque é mais fácil que as pessoas se ponham no nosso lugar quando a “diferença” é mais evidente do que quando a criança é apa­rentemente normal.

Com os julgamentos eu posso bem, por me considerar sem­pre inocente até prova em contrário, mas considero importante que se entendam algumas das coisas que se passam no cérebro destes meninos e que muitas vezes não são respeitadas porque são confundidas com falta de educação ou mimo a mais.

O meu filho, agora com nove anos, não precisa de  andar na rua com uma placa ao peito a dizer “Eu sou autista”, mas já foram várias as vezes em que optei por não dizer que o era e que me arrependi.  

Quando o inscrevi na natação decidi não dar essa informação passadas duas aulas a professora veio perguntar -me se ele era surdo.                                                         Numas férias deixei-o naqueles ATL’s de crianças à beira da piscina e acabou por não se divertir nada porque não teve qual­ quer ajuda para iniciar uma brincadeira com outras crianças.

 Aguentei olhares no meio do supermercado enquanto o Ro­drigo se atirava num berreiro para o chão, num valente surto de birra capaz de virar tudo ao contrário. Aos olhos dos ou­tros, ele não passava de uma criança mimada, sem educação, que fazia tudo o que queria, sob a passividade de uma mãe que não tinha mão nele. Ouvi VÁRIAS vezes “se fosse comigo já tinha levado uma palmada”.    

Ouvi e calei. está. Faltava a placa ao peito do miúdo com a explicação: “Tenho hipersensibilidade ao ambiente que mero­ deia. Não é fácil para mim estar no meio deste supermercado rodeado de estímulos que me desordenam o cérebro e com os quais eu não sei lidar. Mudar de rotinas também é uma prova de fogo e estar neste sítio estranho é avassalador.

Uma palma­ da não me vai acalmar. Antes pelo contrário, até porque tendo a tornar-me ainda mais agressivo e capaz de me magoar a mim mesmo. Defendo-me como sei… perdoem-me o incómodo de estar a fazer tanto barulho enquanto fazem as vossas compras descansados.”           

Face a tudo isto, decidi escrever este texto. Cá vão algumas das coisas que o Rodrigo gostaria que soubessem sobre ele:

1• Não se ofendam quando digo que o vosso frigorífico cheira mal ou quando me recuso a sentar ao pé do queijo que está na mesa. Não me digam: “Sentas-te aí sim senhor porque eu estou a mandar”.

Para mim é mesmo difícil e o mundo não acaba se me sentar noutro lugar ou afastarem o queijo dali. Não estranhem eu andar de nariz tapado na zona da charcu­taria, cheirar tudo antes de comer ou recusar limpar as mãos a um pano já usado. Tal como outros sentidos, tenho o olfacto muito, mas mesmo muito apurado

2. Não me chamem de “menina” nem me excluam só porque não gosto de jogar  à bola, andar de bicicleta  ou fazer esses desportos mais radicais típicos de rapazes.

Tenho problemas com actividades que incluam movimento e o meu equilíbrio deixa muito a desejar. Sou descoordenado e só consegui saltar com os pés juntos de um degrau para o chão aos sete anos. Eu chego lá, mas mais devagar;

3. Como sei que os meus interesses e as minhas brincadeiras são um pouco diferentes e repetitivos, preciso de alguma ajuda para começar a brincar com outras crianças. É só um empur­rãozinho inicial, que depois a coisa dá-se;

4.  A minha audição também é hipersensível, por isso não se zanguem quando peço a alguém que está a conversar ao meu lado para se calar. Não consigo estar em conversas paralelas porque vos oiço mesmo muito muito alto.

É por isso que fico tão perturbado quando passam motas e é também  por isso que tapo os ouvidos quando puxo um autoclismo;

5• Eu gosto que brinquem comigo, gosto de rir, mas evitem ironias, troca­dilhos, sarcasmos ou metáforas. Não esperem de mim segundas leituras, porque não as sei fazer. Fico zangado. E escusado será dizerem: “Estava a brin­car”. Brinquem de outras maneiras co­ migo.

Não me digam que alguma coisa é “canja de galinha” quando querem di­zer “isso é fácil”. Interpreto literalmen­te o que me dizem e a comunicação é sempre um desafio para mim. Por isso, usem palavras simples e directas;

6 Preciso saber o que vai acontecer a seguir. É por isso que quero saber tim tim por tim tim como vai ser o meu dia, um passeio, um almoço, ou um fim-de­-semana. Sair das rotinas é sempre uma prova de fogo e fico mais seguro e con­fortável se souber o que vai acontecer. Sei que nem sempre isso é possível, mas não custa tentar, mesmo parecendo um grande chato;

7• Agarro  na  caneta  de uma  forma estranha e a minha letra não é a mais bonita. É que tenho problemas na motricidade fina, nos movimentos minuciosos, por isso não me julguem por não conseguir ser tão ágil a apertar botões de camisa ou por não conseguir ainda dar o laço nos atacadores. Eu vou conseguir … um dia;

8 • Não levem a mal eu dizer logo que “não quero fazer” ou “não quero tentar”. Tenho a perfeita  noção que não consigo fazer tão bem muitas coisas que os meus amigos fa­zem e acho que vou logo errar.

Como lido com a frustração mil vezes pior do que uma criança sem autismo, evito essas novas situações e arrisco muito pouco. Procurem não apontar sempre o que não sei ainda fazer e elogiem o que já faço bem;

9 • Sei que não posso estar muito tempo seguido a jogar con­solas. Mas sei que sou um pró a jogar Super Mario e fico muito feliz quando os meus amigos vêem e elogiam essas capacida­des. Afinal, sou bom a fazer alguma coisa! E quero tirar parti­ do disso porque me dá auto-estima;

1O • Bem,  tirando  estas  diferenças,  sou  uma  criança  que, como qualquer outra, precisa de ser corrigida, estimulada, de­safiada… e, acima de tudo, amada. Porque podemos não ser grandes fãs de beijoguices e mãozinhas dadas, mas nunca dize­ mos que não a um bom mimo. 

POR: ANA GOMES OLIVEIRA  Jornalista