Aos 19 anos, um médico disse-me para tirar os ovários

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Não é uma frase comum, mas foi o que eu ouvi, sentada no consultório médico, depois de ter feito um exame complicado. “Tire os seus ovários. Eles não estão aí a fazer nada.”

Mas recuemos um pouco atrás para saber como tudo começou.

Desde que me lembro, tive sempre dores por altura da menstruação. É do conhecimento geral que as mulheres sofrem com o período, umas mais do que outras, claro, mas por norma é o que acontece. É o esperado. Por isso, não estranhas quando acontece contigo, porque isso é normal.

Mas as dores não eram comuns. As minhas queixas não eram comuns. Sofri horrores na adolescência. As dores eram debilitantes. Cheguei a um ponto em que não me conseguia mexer, não me conseguia levantar da cama ou do chão. A situação era tão má que tive de ser carregada ao colo pelo meu pai até às urgências.

Foram anos de consultas médicas, ecografias, exames e diagnósticos errados. O que quer que eu tivesse limitava a minha vida. Estava presa às dores e à dúvida. Ninguém me sabia informar do que eu sofria e até houve a sugestão de que eu me queixava sem razão. Quando muitas pessoas duvidam de ti, tu própria começas também a duvidar. E isso para mim foi o pior. Comecei a achar que não tinha nada, que inventava ou que era fraquinha. Recebi vários diagnósticos: que tinha dois úteros; que tinha uma massa para a qual me receitaram dez comprimidos por dia. Todos eles tinham uma coisa em comum: a certeza da infertilidade.

Finalmente conheci o médico certo, que me informou logo do nome correto da minha doença: ENDOMETRIOSE. Um nome para mim desconhecido e que ainda hoje não é tão divulgado como deveria ser. Uma doença que ataca demasiadas mulheres, deixando atrás de si consequências muitas vezes devastadoras. A mim, deixou-me com 1 % de possibilidade de engravidar.

( artigo disponível na integra na nossa edição 13 capa Junho, á venda em banca ou por assinatura)

Testemunho de Ana Rute Simões, autora do livro ‘Quando o Mundo perdeu a cor’

A autora escreveu ao abrigo da antiga grafia.

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