Alimentação infantil – quando levar o seu filho à nutricionista?

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Portugal apesar de ter uma tradição alimentar de base mediterrânica é um país que, neste momento (e infelizmente não é de agora), apresenta valores muito pouco otimistas do ponto de vista de peso infantil: cerca de 30% das nossas crianças apresentam excesso de peso e obesidade.

Com o tanto que se fala da importância da alimentação e hábitos de vida saudáveis, o que estamos afinal a fazer errado? Será que nos estamos a esquecer das nossas crianças?

É inegavelmente mais fácil educar na infância, criando bases sólidas de escolhas alimentares equilibradas, do que retificar na idade adulta, quando surgirem alterações metabólicas ou deixar afetar a autoestima dos mais novos com consequências ainda não contabilizadas.

Estas crianças hoje, serão os adultos de amanhã.

Será mesmo que iremos ter a primeira geração com uma esperança média de vida mais curta que a dos seus pais?

Ainda estamos a tempo de mudar a tendência e por isso é importante que a sociedade faça um esforço no sentido da sensibilização de todos os intervenientes, incluindo pais, avós, educadores, escolas, profissionais de saúde e de toda a comunidade, incluindo ações governamentais públicas e privadas.

Quando falamos em excesso de peso ou obesidade infantil, para além dos valores da balança e da educação para melhorias de hábitos alimentares futuros, estamos a falar em saúde atual.

Antes existiam doenças que julgávamos aparecer com o avançar da idade, como a diabetes mellitus tipo II, a hipertensão arterial ou as dislipidemias.

Hoje encontramos casos muito precoces de doenças cardiovasculares e metabólicas na infância, associadas às más escolhas alimentares e ao sedentarismo.

Fala-se muito sobre os primeiros mil dias da criança, na importância dos primeiros dois anos de vida, ao mesmo tempo que ainda desvalorizamos o consumo de açúcar precoce sob a forma de sobremesas, bolos, rebuçados, gomas ou a oferta de produtos industrializados com gorduras hidrogenadas, excesso de sal e aditivos alimentares supérfluos à saúde.

Continuamos a ter famílias que acham que uma criança “gordinha” (entenda-se obesa) é uma criança bem nutrida, mantendo o comportamento alimentar na espera do “salto” que a fará esticar. 

Pais que, erradamente, não se preocupam com a ação cariogénica do consumo de açúcar porque os dentes são de leite, sendo substituídos pelos definitivos.

Ou a critica comum às famílias mais cuidadosas que acabam por travar uma luta ingrata quando ouvem comentários do género: “Não dás açúcar ao teu filho? Coitada da criança!”.

Seria mais fácil se trabalhássemos todos no mesmo sentido. Uma criança é perfeitamente feliz comendo de forma equilibrada, variada, com produtos autênticos, vindos diretamente da natureza. Porque a natureza é naturalmente doce e rica.

Talvez seja importante darmos o exemplo passando, em primeira instância, pelo comportamento alimentar do adulto em família, na forma como passa o seu tempo livre, privilegiando a prática de atividade física como a bicicleta, os passeios, brincar à apanhada ou simplesmente valorizando a natureza e os espaços exteriores.

Procurar mostrar de onde vêm os produtos alimentares, alimentando a curiosidade e tornando a alimentação saudável verdadeiramente divertida. Plantar ervas aromáticas em casa para utilizar nos cozinhados, germinando leguminosas como grão de bico ou feijões, levando os mais novos a escolher os ingredientes que querem introduzir na sopa.

Contando histórias sobre as receitas, tornando-as mágicas, como a sopa verde com espinafres e ervilha que é do dinossauro, do Hulk ou do club desportivo da criança; ou da sopa rosa de beterraba que as princesas adoram. A imaginação nestas idades é na verdade o melhor tempero de todos.

Por vezes, é difícil competir com a diversão associada ao marketing alimentar que se esconde atrás do brinde, da tatuagem ou dos cromos oferecidos, numa composição nutricional muito pouco interessante para a faixa etária a que se destina essa comunicação.

Já começa a haver alguma regulamentação: desde abril de 2019 Portugal tem uma lei que aplica restrições à publicidade alimentar dirigida a menores de 16 anos. Mas ainda há espaço para muito mais.

Como nutricionista acho fundamental a inclusão da consulta de nutrição especializada quando o assunto é alimentação dos mais novos.

Tal como há a consulta de rotina com o pediatra, o dentista ou o oftalmologista, considero que a consulta de nutrição deveria ser passagem recomendada para todos os pais, para falar sobre a diversificação alimentar.

A criança é levada à consulta de nutrição, na maior parte das vezes, tarde de mais, quando já ultrapassa o percentil desejado, quando sente a pressão social ou insatisfação com a sua autoestima. Devemos atuar antes, na prevenção, juntos em sociedade.

POR: Nutricionista Lillian Barros

Assista à segunda temporada do Podcast “Lógica da Batata” sobre Alimentação, Saúde e Bem Estar com convidados de várias especialidades, moderado pela Nutricionista Lillian Barros

1º episódio do Podcast aqui

IG: @nutricionistalillian