Como ajudar o seu filho a ser corajoso e assertivo

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Entrevista a Ana Moniz_ Psicóloga

Para a psicóloga Ana Moniz é possível melhorar o bem-estar nas escolas – e mais tarde no local de trabalho – com uma só palavra: coragem. Leia alguns conselhos práticos da autora para educar crianças seguras, responsáveis e felizes.

Coragem é a palavra de ordem do livro recentemente publicado pela psicóloga Ana Moniz, com o título “Este livro não é para fracos”, que tem como principal objetivo indicar como é possível ganhar mais bem-estar, em todas as esferas da vida, através de um trabalho de autoanálise individual e de mudança de atitude perante as situações que se colocam diante de nós, sobretudo afastando o medo e a vergonha da nossa forma de agir. 

Esta publicação é não só útil para a população adulta como também dá pistas, capítulo a capítulo, sobre a educação para a coragem das crianças, o que pode ajudar a evitar situações como o bullying nas escolas. 

Para a autora esta palavra «está na ordem do dia não porque exista mais bullying, mas porque a mentalidade tem mudado e estamos mais atentos e críticos relativamente a este tema.

E mesmo assim ainda existirão muitos casos que não são reportados. Uma vez que agora é possível fazer uma denúncia anónima, todos nós, mesmo que espetadores distantes, temos a responsabilidade de agir», alerta, acrescentando que «a prevenção faz-se muito antes de se falar em bullying e tem a ver com o desenvolvimento da assertividade, da autoconfiança e do altruísmo, do cuidado e respeito por si próprio e pelos outros».

Uma comunicação aberta com os pais também é fundamental, «é importante que se vá falando deste tema em casa sem diabolizar as crianças que praticam bullying e sem descrever as que estão a ser alvo de bullying como medrosas ou “fracas”. Às vezes as crianças não pedem ajuda por vergonha de desiludir ou preocupar os pais», frisa.

Ana Moniz traz à luz no seu livro vários exemplos de investigações na área da psicologia social que vêm confirmar a tendência humana, por vezes mais específica a uma ou outra cultura, para alguns comportamentos que nos impedem de agir de uma forma verdadeiramente assertiva e corajosa. 

Educar pelo exemplo

«Parece-me importante dar a devida dimensão a palavras como “assertividade” e “coragem”. São conceitos usados como se fosse fácil pô-los em prática, mas depois quando olhamos à nossa volta ou até para nós próprios vemos que é muito difícil agir desta maneira. 

Contrariar uma ordem injusta, ser o único numa reunião a ter uma opinião contrária, intervir para pôr fim a uma situação de injustiça… nada disto é fácil. Para as crianças também não o é.

A melhor ferramenta que os pais e educadores têm ao seu dispor é darem o exemplo. E darem o exemplo de um modo transparente que é partilharem a dificuldade de agir assim e as vezes em que não o conseguiram fazer», avança a psicóloga. 

Ensinar a pensar pela própria cabeça

«Viver inserido num grupo e seguir as regras do dia a dia é essencial para o bem-estar, ajustamento social e vida em sociedade.

A questão põe-se naquelas raras situações em que o nosso grupo está a ter uma ação que contraria os nossos princípios ou valores e nessas alturas muitos de nós queremos mostrar a nossa posição, mas só alguns conseguimos.

E conseguimos porque aprendemos a gerir emoções como o medo da rejeição, a vergonha de sermos ridicularizados, criticados», avança Ana Moniz, sublinhando que «os pais têm um papel importante ao mostrarem como a vergonha e o medo são emoções desagradáveis, mas que se pode aprender a viver com elas em vez de sermos “carneirinhos” a evitar pensar pela nossa cabeça e a querer ser invisíveis no rebanho. O nosso exemplo é crucial, e também as mensagens que vamos passando, por exemplo frases como “vais vestido nessa figura!! Já viste o que é que vão dizer?” ou “se o problema não for contigo não te metas que depois ainda se zangam contigo” são frases que desencorajam a afirmação pessoal, o altruísmo e a autoconfiança».

Agir com menos “carneirismo”

«Como adultos temos o poder e a responsabilidade de procurarmos aquilo de que precisamos e não tivemos em criança, por isso em qualquer idade e altura da vida podemos passar a agir com mais coragem, maior responsabilidade pelos nossos atos e menos “carneirismo”.

Mas quanto mais cedo, melhor, é mais fácil e mais sólido», frisa, acrescentando que «como pais e educadores podemos fazer a diferença no dia a dia, por exemplo habituando as nossas crianças a olharem nos olhos dos adultos, a darem a sua opinião, e poderem perguntar o porquê das ordens que lhes damos, e sobretudo a evitar jogos de poder do género “aqui mando eu”, “fazes porque eu digo”. Fará mais sentido explicar que há coisas que ainda são os pais que decidem porque eles ainda não conseguem decidir sozinhos porque são crianças, mas que à medida que crescem são eles que mandam neles próprios e que tomam as suas decisões». 

Sabia que?

Portugal é um dos países onde as pessoas sentem uma grande distância em relação ao poder e onde aceitam a distribuição desigual do poder como um dado adquirido, o que tem um efeito de desresponsabilização.

Ana Moniz defende que é através da responsabilização, do inconformismo e da autoconfiança que podemos construir uma sociedade de adultos e crianças ativos que enfrentam os seus próprios medos e vergonhas, com coragem e assertividade, agindo mais de acordo com o que entendem ser justo.

POR: Aida Borges