Adiantadamente

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Premature baby foot under ultraviolet lamp in the incubator

O instinto tem a ver com a memória e o esquecimento. No dia em que nasci dancei ao som de máquinas, de um grito gutural de uma mãe arrancada, de um pai que estava dentro de uma bolha de medo e confusão. Tanta luz de repente. Procurei aquele som quente do coração, do estômago, da respiração que me embalou durante semanas de paz. Não encontrei. Caixa quente com apitos ritmados, teias de aranha de fios milagrosos e uma mão. Muitas mãos, nenhuma mão. Não encontrei a mão que precisava, a que conhecia entre todas as outras. Num momento a mão que procuro. Toca-me. Pele quente na minha pele fina e enrugada. Reconheço aquela pele. É a respiração onde cresci. Mais um dia, menos uma teia, desligam um dos grilos. Aperto a mão grande com toda a minha força – é o meu barco de papel. Mais um dia, uma voz alegre que chora e ri que brinca e soluça que acredita e tem todo o medo nele, no seu peito e nas suas cordas vocais. Mais um dia, sinto-me assustado, tenho medo. Quero colo, não há colo. Mais um dia, fora da caixa. Colo salgado borrifado a soluços. Cheiro de pele, a nossa pele, coração a bater a minha música de embalar. Mais um dia, tenho medo. Mais um dia, a mão, a voz os soluços. Mais um dia, pele na pele. Leite com amor, o meu leite, feito para mim. Mais um dia, desliga-se o apito. Consigo encher-me de ar. Mais um dia, durmo numa caixa sem teto, rodeado de ar. Mais um dia e outro dia e outro dia. Ouço passos e sei de quem são. Mãe. Pai. Casa. Medo. A bolha arrasta-se, não dentro da caixa, mas no coração de cada um dos meus pais. Só aquelas respirações se aproximam de mim. A manutenção milimétrica do ninho onde me deito é um ritual. Abro os olhos, vejo-os. Espirro, sinto-os. Choro, tenho-os. Mexo-me, toco-lhes. Sorrio. Estou cá. Cresço. Aprendo. Amo. Distancio-me para crescer tudo. Têm medo. Sempre o medo. Cresci, repito. Estou cá. Fico. Um dia de cada vez. Todos os dias.

Ao escrever este texto pensei ser pertinente dar voz ao bebé que vai oferecendo indicações ao leitor das várias fases pelas quais a família passa, após o nascimento de um bebé prematuro. Depois de um nascimento inesperado, os pais vivem um momento de elevado stress e de um impacto emocional intenso. O processo vai sendo progressivo, com avanços e recuos até ao momento da alta, em que os pais se sentem por um lado, felizes pelo estado de saúde do filho, por outro, com receio de ter de cuidar daquele bebé tão frágil. O medo dos pais surge como pano de fundo enquanto manifestação do sentimento primordial que sentem – o amor.

Teresa Moos_ Psicóloga Clínica da Infância

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