A minha escola? Fica na Floresta   

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O projeto Raízes surge como uma aprendizagem alternativa ao ensino convencional, onde o contacto com a Natureza e a partilha entre gerações são privilegiadas

Todos os dias, crianças entre os 3 e os 6 anos trocam as quatro paredes de uma sala e desenvolvem atividades pedagógicas com brincadeiras ao ar livre, onde se valorização os saberes mais antigos, a leitura e as práticas para uma vida mais autónoma e sustentável. 

A manhã não começa com passos apressados pelos corredores de uma escola em direção a uma sala. Não se vestem bibes e não se passa o dia entre quatro paredes.

Neste ensino alternativo, o dia começa com uma caminhada até à Floresta do Avô e é ali, ao ar livre e em contacto com a Natureza, que as crianças fazem as mais diversas atividades, numa aprendizagem permanente que assenta em pilares pedagógicos. Mas já lá vamos. 

O projeto Raízes – Aprendizagem ao ar livre e partilha intergeracional nasce em plena pandemia pelo empenho e vontade de Raquel Luís, educadora de infância, e do marido, Leonardo Medeiros.

Crentes de que estar em contacto com a Natureza, seja ela campo, horta, floresta, praia, rio ou montanha é essencial para um desenvolvimento saudável das crianças, criaram uma alternativa ao convencional pré-escolar, criando um projeto onde procuram que as crianças se sintam livres para explorar, brincar, fazer as suas próprias descobertas e observações.

“Ao seu ritmo, sem o stress e limitações muitas vezes sentidas entre quatro paredes”.

É com esta linha de pensamento que pela manhã, e já em plena união com a Natureza, os pequenos fazem uma reunião matinal onde decidem em conjunto o que querem fazer nesse dia.

Cada um vai soltando as suas ideias. Há canetas, cartões, fios de lã, paus, colas e tudo o que precisam para que criem o que a imaginação lhes ditar. No dia da nossa visita quiseram fazer um dragão! Nem todos.

“Quem não quer, faz outra coisa. Mas as nossas decisões são sempre feitas com votação e ganha a maioria”, explica Raquel. Aliás, este é um dos princípios do projeto, a importância das práticas democráticas, ligadas à partilha do poder.

“A criança tem de ser ouvida e as suas escolhas têm de ser valorizadas porque também aprendem com elas.”

Em poucos minutos as brincadeiras vão-se desenrolando. É a infância a acontecer no seu estado mais puro. Com idades entre os 3 e os 6 anos, a troca de experiências também serve de mais-valia. Constroem parques de dinossauros, cabanas, pontes, fogueiras, baloiços… As aprendizagens vão sendo introduzidas de uma forma natural e bastante dinâmica. 

“Acreditamos que a forma mais completa para aprender é aquela onde a criança se sente segura, tranquila, motivada e feliz”, defende a mentora. Assim, a vertente pedagógica do projeto Raízes assenta em vários princípios. 

Além das práticas democráticas e do privilégio das brincadeiras ao ar livre, Raquel Luís não tem dúvidas de que a educação na Natureza desenvolve a confiança, auto-regulação, comunicação, motivação e concentração; promove uma maior resistência física, aperfeiçoando as habilidades motoras finas e grossas; abre caminho para um aumento de comportamentos focados na importância ambiental e sustentável; aumenta o conhecimento do meio ambiente, da fauna e flora existente nos espaços de atividade; além de outros benefícios. 

Por outro lado, neste projeto, “a criança é responsável pela construção do conhecimento pessoal e coletivo, por isso mesmo, o trabalho está centrado nas motivações da criança, dando resposta aos seus reais interesses. Cada um deles participa ativamente no seu processo de crescimento e aquisição de conhecimentos”. 

Outra componente muito importante está ligada ao cruzamento entre gerações, onde a comunidade local tem um papel determinante. “Queremos ligar as crianças aos idosos e dar voz a ambos, porque entendemos que são fundamentais as partilhas de tradições, de conhecimento e saberes e fomentar a solidariedade entre novos e velhos, proporcionando até momentos de alegria a gerações mais velhas que às vezes se sentem sós”.

É nesta linha de pensamento que no projeto Raízes as crianças também aprendem ofícios tradicionais. 

Mas a aprendizagem não se faz apenas na Floresta do Avô, localizada na Cachouça, Mafra. À sexta-feira é dia de visitas culturais ou saídas da floresta, onde podem aproveitar para fazer as mais diversas atividades.

Vão também à casa da vizinha Maria para colher fruta no seu pomar, ao forno do pão da Tia Amélia onde colocam as mãos na massa, ao centro cultural e recreativo onde acontecem algumas ações de interior ou à horta comunitária, onde todos são convidados a participar.

Nas mochilas levam a liberdade das brincadeiras que vão poder fazer durante o dia, mas também as marmitas do almoço. No final, cada um lava a sua própria loiça, fomentando assim a autonomia e a responsabilização. 

À tarde há um momento de descanso, onde muitos fazem a sesta. Numa casinha de madeira construída na Floresta, as prateleiras enchem-se de livros infantis. “Damos muita importância à leitura e lemos muitas histórias. É um momento que eles adoram”, conta Raquel. 

Cada dia é uma descoberta, uma surpresa, uma nova aprendizagem. “É um orgulho vermos a alegria com que aparecem todas as manhãs no ponto de encontro para mais um dia connosco. Temos ainda muitas ideias para concretizar, mas é muito gratificante termos conseguido pôr em marcha este tipo de aprendizagem holística que para nós, que também somos pais, faz todo o sentido”, remata Raquel Luís.