A Diástase do Natal

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Cheerful santa claus touching his belly among snow falling

O que é que esta época natalícia tem a ver com diástase abdominal? Se pensarmos no volume abdominal do Pai Natal e nos esforços que faz ao carregar os presentes, ele é um forte candidato a uma diástase abdominal.

Mais provável ainda é a diástase de Maria, uma vez que uma em cada três grávidas apresenta esta condição 12 meses após o parto.

Mas em que consiste exatamente a diástase abdominal, este nome nada natalício? Refere-se ao afastamento dos retos abdominais, os quais ligam as costelas à bacia na região anterior do abdómen. 

Estes músculos afastam-se pelo aumento do volume e da pressão abdominal e por isso faz sentido que a mesma ocorra frequentemente na gravidez e que desapareça ao fim de algumas semanas pós-parto, normalmente 8 semanas.

A sua existência está relacionada com fraqueza do períneo, dores lombares e pélvicas, obstipação ou incontinência urinária. 

O que fazer para tratar uma diástase que teima em não ir embora? O que a ciência nos diz pode ser (e é) contraditório. Proponho-lhe então um exercício (descanse, não é abdominal) que na verdade é o que deverá guiar qualquer raciocínio clínico, que é: pensar. 

Ora, se a diástase é o afastamento dos retos abdominais e se estes se afastam por aumento de pressão abdominal, que “empurra”, temos aqui dois objetivos: aproximar os retos e diminuir a pressão abdominal. 

Para aproximar os retos abdominais, os exercícios mais eficazes são os abdominais mais “comuns”, que implicam subir o tronco.

Mas, como em tudo, há um senão: eles tendem a aumentar excessivamente a pressão abdominal porque a maioria de nós, ao fazer este movimento, faz força com a barriga “para fora”.

Por outro lado, juntam os retos, mas à custa de alguma distorção da linha alba (o tecido conjuntivo que une os dois retos, uma espécie de separador central). 

Quer dizer que interessa também uma outra “família” de exercício abdominal, que traga a parede abdominal para dentro.

Fazemos isso com recurso a músculos abdominais mais internos, que fazem uma espécie de cinta e que ao contraírem atuam como um espartilho, aumentando a tensão na linha alba e reduzindo a pressão intra-abdominal.

Mas o que a ciência nos diz – e agora, espante-se – é que afasta os retos abdominais pelo aumento desta tensão na linha alba. 

Então em que é que ficamos? Optamos por exercícios que unem os músculos mas que aumentam a pressão abdominal, ou pelos exercícios que aumentam a tensão do separador central e apertam o espartilho, mas consequentemente afastam os retos? 

O ideal é não optarmos por nenhum e sim aliar as vantagens de ambos. Quer dizer que ao fortalecer a musculatura abdominal deveremos aprender como “apertar o cinto” para diminuir a pressão abdominal e simultaneamente realizar exercícios que favoreçam o aproximar dos retos. 

No contexto pós-natal – e não estou a falar dos dias a seguir à quadra festiva, mas sim do período após a gravidez – há ainda um outro fator importantíssimo a ter em conta, que é a força do pavimento pélvico.

Grande parte das mulheres com diástase abdominal tem também fraqueza do seu períneo e, portanto, é essencial que optem por exercícios que fortaleçam essa musculatura mais interna e inferior e que não realizem exercícios que aumentem a pressão sobre essa zona.

É por esta razão, pelo facto de não existirem verdades absolutas e não existir nenhum vídeo no YouTube milagroso, que a recuperação pós-natal deverá ser acompanhada por profissionais especializados, que fazem uma avaliação do estado dos seus músculos e os ensinam a contrair da forma mais eficaz e segura, recomendando os exercícios mais eficientes para cada caso – porque como já percebeu, isso depende de muitos fatores. 

Por isso, nesta época festiva, a melhor prenda que lhe posso oferecer é este conselho. Não acredite em exercícios que resolvem tudo a toda a gente, cada barriga conta uma história e ninguém melhor que um profissional especializado para a ouvir, seja a de um Pai Natal ou uma mãe Maria.

POR: Ana Margarida Monteiro _ Fisioterapeuta