Adolescentes e desafios – uma batalha… Só que não!

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Muito antes de “maltratarmos” esta fase tão importante da vida de qualquer ser humano, saibamos enquanto pais reconhecer quão preciosa esta altura é para as crianças crescidas lá de casa que se recusam e, bem, a ser designadas como tal!

-“Mãe, pai… já não sou uma criança!”

Não fora as lembranças das doçuras e travessuras de uma idade mais inocente, seria quase impossível reconhecer que o adolescente lá de casa tivesse alguma vez sido aquele bebé doce e sorridente de há apenas alguns anos atrás.

É verdade, o tempo passa e eles crescem, mas asseguro-vos que nem por isso deixam de precisar de nós! Precisam sim, mas de outra forma; de espaço, segurança e, sobretudo, confiança!

Não advogo, contudo, a falta de limites e o livre-arbítrio inconsequente de quem não teme o resultado das suas ações porque tem pais que corrigem, defendem e protegem em demasia aqueles que se tornaram já “pequenos grandes tiranos!”

É preciso dar-lhes “critério, coerência, capacidade de amar, de sancionar, de dizer ‘aqui e agora não” (URRA;2016), para que aprendam a responsabilidade no dia-a-dia, compreendendo que as escolhas que fazem são suas, mas também o serão inegavelmente suas as consequências resultantes das mesmas.

A verdade é que ao rotularmos os nossos adolescentes de “dramáticos aborrecidos” ou de “irresponsáveis maldispostos”, nem sempre lhes damos espaço para que mergulhem nas interrogações existencialistas que lhes atormentam o espírito, as quais tendemos a desvalorizar, senão mesmo ridicularizar do alto do nosso pedestal da maturidade.

Embora “cliché”, o certo é que têm razão quando exigem ser tratados de outra forma quando entram verdadeiramente nesta fase, sem culpas ou acusações!

É habitual ver pais exaustos a tentar perceber as frustrações de quem, acreditamos nós, não tem quaisquer preocupações. Mas é aqui que invariavelmente falhamos! Tudo se torna grandioso na altura em que, já pouco inocentes, se apercebem que preferem uma independência (pouco insegura ainda) a uma obediência cega, (só porque sim!); quando durante horas se deleitam a pensar sobre a forma como pensam, lutando por ideais utópicos que os ajudam a descobrir a sua personalidade e caráter, enquanto desenvolvem um diálogo interno que lhes irá marcar a autoestima para sempre. Seria injusto afirmar o contrário! É como se reaprendessem a caminhar e a olhar o mundo.

Contudo, e porque ninguém nos ensinou a sermos pais de filhos adolescentes, assustamo-nos demasiado com estas mudanças, caímos no exagero da superproteção e, não raras vezes, da incoerência! Com efeito, se durante a infância sempre procurámos estimular os nossos filhos para que enfrentassem os desafios do quotidiano e soubessem gerir emoções, porque nos recusamos a fazê-lo na adolescência, sempre receosos de perder o amor incondicional dos nossos filhos?

Respirem! Respirem de novo… profundamente, e pensem quão privilegiados são por poderem ajudar os vossos filhos a atingirem um novo nível de maturidade, mas não à custa da sua autonomia ou responsabilidade.

Sejam coerentes com os vossos princípios e limites e, acima de tudo, exemplo! Respeitem e exijam respeito, bem como verdade ou dignidade, pois a base de qualquer relação será sempre o princípio de “igual valor”, pois é nesta nova relação que vão construindo connosco que irão reconhecer a grandeza (não a arrogância) do seu caráter e personalidade! 

Por isso, se queremos ser melhores pais aprendamos acima de tudo a:

  1. Confiar e responsabilizá-los sem recriminações;
  2. Escutá-los e fazê-los pensar sobre as suas decisões;
  3. Aconselhá-los sem anular as suas perspetivas;
  4. Incluí-los nas nossas decisões de família;
  5. Desdramatizar esta fase da adolescência, porque isso sim, os torna stressados!

Finalmente, sejam claros no vosso amor incondicional e quando os sentirem mais receosos ou talvez inseguros face a um qualquer desafio, não deixem de lhes explicar, tal como quem conta uma estória (se própria tanto melhor!), porque é importante enfrentar o mesmo, para que jamais se sintam prisioneiros de algo que nunca ousaram fazer, pequeninos no seu medo e arrependidos por não terem tido coragem suficiente! 

Crescer e aprender implica cair, levantar-se e voltar a tentar. Saibamos acompanhá-los neste percurso que é a descoberta deles mesmos, sem os subtrairmos das consequências dos seus atos. Estejamos presentes e disponíveis sem a amargurada ansiedade de separação (nossa) que os sufoca e os torna inseguros. Saibamos antes questioná-los e fazê-los pensar, para que recusem o rótulo de vítimas e aprendam a agir proativamente em prol de uma jornada que é apenas sua e não nossa!

Saibamos enfim ser pais dos nossos filhos adolescentes… nós apreciamos e eles agradecem, pois tal como Marcel Proust disse um dia – “A adolescência foi a única época em que realmente aprendi algo!”

Por: Isabel Valente _Mestre e Formadora em Educação