Lidar com o silêncio dos jovens

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Questões de identidade, aliadas à redefinição das relações sociais e a procura pelo equilíbrio emocional, levam muitos adolescentes a fecharem-se em si mesmos.

Os pais sentem essa falta de comunicação e é importante agir de forma adequada, sem castrações ou discussões infrutíferas. 

A adolescência é uma fase de desenvolvimento onde se verificam várias mudanças. Uma delas pode passar por algumas alterações na comunicação, nomeadamente com os adultos.

De repente, aquelas crianças tagarelas, já não falam tanto com os pais, quando o fazem parece contrariados ou limitam-se a responder “sim” e “não”. Os pais sentem muito esse silêncio, sendo importante tomar uma atitude correta face a esta diminuição de diálogo.

Afinal, é normal os pais quererem inteirar-se da vida dos filhos, como a escola, relações de amizade, amorosas, problemas, dificuldades… 

A verdade é que os adolescentes passam por uma fase em que precisam repensar as suas relações sociais, restabelecer a estabilidade emocional e refletir sobre as questões da identidade. E precisam também deste tempo para se reorganizarem e responderem às necessidades do desenvolvimento.

Os pais deverão ter aquilo a que se chama de autoridade democrática, tão importante na adolescência.

É essencial continuar a garantir que as regras e os valores são seguidos, mas deixar também algum espaço para que os jovens formem as suas próprias opiniões e assumam as responsabilidades dos seus atos.

Assim, segundo dos especialistas, os progenitores devem manter-se participativos, mas não exigir com rigidez e falta de flexibilidade. Nesta fase é importante alguma flexibilidade, dentro dos limites estabelecidos no seio da família, sem se tomarem atitudes invasivas ou castradoras.

Se o adolescente sentir que tudo o que diz está errado, que não confiam na sua autonomia ou que o desrespeitam, vai certamente procurar apoio junto dos amigos, ou de quem o aprova. Ou seja, a palavra-chave é equilíbrio. 

Ana Rodrigues da Costa, doutorada em Desenvolvimento Psicológico, Família, Educação e Intervenção, pela Universidade de Santiago de Compostela, debruça o seu estudo sobre estas questões e aconselha: 

  • Pelo menos uma vez por dia, a família deve partilhar uma refeição, em que a televisão, os telemóveis e afins estejam desligados, de modo a que cada um fale do seu dia, das suas preocupações, dos acontecimentos felizes, ou seja, comuniquem.

 

  • Partilhar com o adolescente tarefas, jogos, passeios, algo que lhe agrade, e durante esses momentos falar e acima de tudo escutar (escuta ativa) o que o adolescente tem para dizer, sem preconceitos, sermões ou juízos de valor. E sem emitir opiniões desagradáveis acerca dos amigos, dos namorados, criticar negativamente ou dar ordens, que poderão fazer com que o adolescente se feche e deixe de partilhar e de comunicar.

 

  • A linguagem a usar deve ser adequada, adulta, não a que os adolescentes usam. Cada um tem uma função diferente, direitos e obrigações diferentes, idades diferentes e isso deve ficar claro.

 

  • As conversas também devem ser particulares, não à frente de amigos ou de familiares, porque muitas vezes as opiniões destes ou a sua interferência podem causar conflitos. Os adolescentes criticam a autoridade e criticam os adultos em público mas se tal lhes acontece é um drama — “todos vão saber… todos vão ouvir” (a audiência imaginária).

 

  • A boa noticia é que, ao longo da adolescência, e apesar de começarem a passar menos tempo com os pais, esse é um tempo de “qualidade”, em que a relação, os sentimentos e, consequentemente, a comunicação se vão tornando mais positivos. Claro que todos se devem empenhar nesta melhoria que deve começar a ser construída desde muito cedo.