As paredes da saúde: um olhar sobre a nossa “casa”

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A um profissional de saúde é exigido conhecimento acerca desse estado tão singular e frágil que é o estar saudável.

Estar e ser saudável depende de vários factores que podem ser analisados separadamente mas nunca podem ser dissociados.

Ou seja, a um fisioterapeuta é pedido que analise a postura, o músculo, a articulação, mas raramente pensamos que para o fazer, como profissional de saúde, há muito mais que perceber e analisar. 

Encaremos o estado de saúde como uma casa. O terapeuta, ao entrar nessa casa terá que olhar para as diferentes paredes.

A primeira que encontra é a parede estrutural, relacionada com a actividade física, o movimento e a postura. Olhando para o lado, surge a parede emocional, relacionada com o contexto social, familiar, stress e emoções.

A parede logo ao lado, a energética, relacionada com a nossa genética e as radiações a que somos sujeitos. Por fim, a parede química, relacionada com o estado nutricional, hidratação e assimilação. 

Só olhando para todas as paredes poderemos entender o estado de saúde da pessoa e só abordando as diferentes paredes poderemos ajudar na construção ou reabilitação dessa casa que é a saúde. 

Chega de metáforas. Passemos à prática.

Imagine que chega até mim com uma dor no ombro direito. Uma dor que aumenta de cada vez que traz o seu braço à cabeça ou atrás das costas.

Durante a noite a dor agrava e quando levanta pesos fica com mais dores. Ao analisar e testar o ombro posso concluir que tem sinais compatíveis com uma tendinite. Mas porquê?

Aqui começa o principal desafio.

Poderá ser a postura enrolada que coloca o tendão em stress? Poderão ser os movimentos repetidos deste braço, que exijam esforço acrescido a esta zona? Poderá ser fraqueza dos músculos que deveriam estar a controlar o movimento? Ou será uma alteração da qualidade do tecido do tendão, por uma alimentação excessivamente ácida ou inflamatória?

Poderá significar também que há uma sobrecarga hepática ou alguma disfunção das vias biliares, já que a sua zona de dor referida é exatamente o ombro direito? Pode ser qualquer uma destas hipóteses. Diria mesmo que na grande maioria das situações, há vários factores em simultâneo.

Descascando as paredes, através da realização de testes, poderei aproximar-me daquelas que são as verdadeiras causas dos sintomas e qual a abordagem que faz sentido. Ao sair da sessão provavelmente terá recebido várias técnicas manuais para as articulações e estruturas implicadas.

Terá igualmente aprendido algumas estratégias para lidar com a dor.

Não deverá ter saído da consulta sem “trabalhos de casa” para fortalecer os músculos enfraquecidos (normalmente os estabilizadores da omoplata) e promover a recuperação mais rápida e ativa.

Em muitos casos, poderá também ter recebido algumas indicações de que alimentos evitar – como gorduras saturadas ou trans, açucares refinados – ou que alimentos alcalinizantes e anti-oxidantes incluir na sua alimentação, como verduras, leguminosas, frutos secos ou algas.  Não raras vezes o conselho será consultar um profissional mais especializado como um nutricionista. 

Imagine agora que tem uma dor lombar que começou há uns meses,

e que tem vindo a agravar. Não relaciona com nenhum movimento, é constante e de manhã ao despertar sente uma rigidez grande. Quando chega à minha consulta, a avaliação da postura mostra que tem uma coluna muito pouco móvel, alguma rigidez muscular na região dorsal e lombar e um abdómen ligeiramente proeminente. Pelas perguntas que faço percebo que tem hipertensão arterial e que não dispensa um bom queijo às refeições, tendo um estilo de vida sedentário e com algum stress. 

Espero que por agora se torne óbvio que, para além de ajudar as suas articulações a mexerem melhor e os músculos a relaxar

-o que permitirá que saia da sessão com menos dor e que consiga dormir melhor – lhe faça o ensino de exercícios para aumentar a mobilidade da sua coluna e para fortalecer os músculos que a protegem. Não sairá da consulta sem perceber a importância do exercício físico, nomeadamente cardiovascular, para diminuir a sobrecarga renal e os níveis de stress, daí que caso não consiga fazê-lo sozinho possa considerar a hipótese de ser acompanhado por um profissional especializado. Por mais que custe, uma dieta privilegiando gorduras insaturadas, opções integrais e uma correta hidratação – para além da procura de ajuda especializada – serão estratégias a adoptar para que a melhoria de sintomas não seja temporária mas sim permanente.

Dois exemplos típicos que espero terem clarificado esta necessidade de abordagem holística. E esta forma de encarar a saúde é tão essencial para o profissional como para a pessoa que nos procura. Um profissional que julgue conseguir resolver tudo com uma só abordagem provavelmente não alcançará o resultado desejado. Tal como alguém que não entenda como o que ingere ou como se sente influencia o seu corpo ou a sua dor, provavelmente não conseguirá bons resultados 

Um músculo que dói pode não ser só um músculo que dói.

Uma dor de cabeça pode não se resolver apenas com medicação e exercícios para a cervical. A cada profissional é exigido uma especialização numa das paredes mas é também essencial que consiga olhar para as outras de forma a encaminhar para outras especialidades se for esse o caso. 

Isto porque o corpo humano é bem mais complexo do que imaginamos. A boa notícia é que se olharmos bem, ele dir-nos-á quase tudo. 

POR: ANA MARGARIDA MONTEIRO

(ARTIGO DISPONIVEL NA EDIÇÃO 15 À VENDA EM BANCA E NA NOSSA LOJA ONLINE)